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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Data center no Brasil o hub Gigante da da América Latina

Há algo de profundamente contraditório na era digital. É curioso: um celular no bolso guarda todo o conhecimento humano.

Mandamos vídeos ao vivo para qualquer canto do planeta, fazemos transferências milionárias com um toque na tela.

data center


Mas quase ninguém para pra pensar na estrutura real que viabiliza tudo isso – ela é tão invisível que parece até abstrata.

Tem uma coisa curiosa: cada like, cada filme que roda sem travar, cada Pix que cai na conta em segundos – tudo isso depende de uma estrutura gigante, mas que ninguém vê.

São os data centers. E não tem nada de "nuvem" neles. São prédios enormes, de concreto e aço, lotados de servidores que puxam tanta energia quanto uma cidade pequena. Leia aqui: Arquitetura e urbanismo pode ser a salvação para cidades sustentáveis.

Para não ferverem, contam com sistemas de refrigeração complexos. E a segurança é tão rigorosa quanto a de um banco.

O Brasil, nos últimos anos, saiu da posição de simples consumidor de infraestrutura digital e virou um dos nomes mais importantes do jogo.

Hoje, é o principal mercado da América Latina no setor, e os bilhões de dólares que as gigantes globais estão despejando por aqui não são à toa. O país é hoje um hub estratégico — e não por acaso.

Por que o Brasil é a bola da vez para investimento em data centers?

Três forças estruturais convergiram para essa transformação.

1. A LGPD e a soberania dos dados

A Lei Geral de Proteção de Dados, a LGPD, mudou o jogo. Ela não só organizou as regras para o uso de dados pessoais, como também obrigou as empresas a armazenar e processar informações de brasileiros aqui dentro do país. 

Essa exigência, na prática, criou uma demanda gigante e sem volta por infraestrutura nacional.

Antes disso, as empresas guardavam os dados dos clientes brasileiros em servidores nos Estados Unidos ou na Europa. Era a prática mais comum. 

Com a LGPD, essa prática se tornou juridicamente arriscada. A soberania digital passou a ser não apenas uma aspiração, mas uma exigência operacional. 

O efeito prático foi imediato: gigantes da tecnologia — AWS, Microsoft, Google — aceleraram a construção de regiões de nuvem no país. Leia aqui: Empresas de data center no Brasil ignoram custo de água e energia.

2. Os cabos submarinos: as rodovias de fibra óptica

Se a LGPD explica o porquê de os dados ficarem por aqui, os cabos submarinos mostram o como a gente faz isso com qualidade de primeira. 

Em Fortaleza, na Praia do Futuro, está a maior estrutura de cabos submarinos da América Latina – e a 17ª do mundo. 

A capital cearense já tem 16 cabos de fibra óptica em operação, e um 17º (que na verdade é o 18º), batizado de Synapse, já tá sendo instalado com foco total em inteligência artificial.

É por esses cabos que passa cerca de 90% de todo o tráfego internacional de dados que chega ou sai do Brasil. 

Eles ligam o país à Europa, à África, ao Caribe e à América do Norte, com rotas alternativas e baixa latência – um diferencial estratégico pra serviços que precisam responder na hora, como streaming, jogos e transações financeiras.

3. 5G e IA generativa: a nova fronteira

Se a LGPD e os cabos submarinos criaram as condições de fundo, o 5G e a inteligência artificial generativa são os motores que estão acelerando o mercado a uma velocidade sem precedentes. 

Modelos de IA generativa exigem um poder computacional imenso para treinamento e inferência. 

Cada nova geração de modelos consome exponencialmente mais energia e processamento. Leia aqui: 25 bilhões para o Plano Clima e cortes milionários em pastas fundamentais

E o 5G, ao conectar bilhões de dispositivos em tempo real, gera um volume de dados que simplesmente não pode ser processado em infraestruturas legadas.

Os números confirmam o diagnóstico. O mercado de data centers no Brasil, estimado em 888 MW em 2025, deve alcançar 1.360 MW até 2030

O país já concentra 48% da capacidade instalada de data centers da América Latina e 71% da que está em construção.

O critério invisível: o que faz um data center ser "maior"?

Antes de percorrermos a lista, uma pergunta se impõe: o que significa, afinal, dizer que um data center é "maior" que outro? 

A resposta não está nos metros quadrados de sua construção, tampouco no número de racks que abriga. São métricas relevantes, é verdade, mas que contam apenas parte da história.

O critério universalmente adotado pelo mercado — e o que utilizaremos aqui — é a potência elétrica contratada em megawatts (MW). 

Mais do que o espaço físico, é a capacidade de energia que define o verdadeiro porte de uma instalação. 

Ela determina quantos servidores podem operar simultaneamente, quantos chips de inteligência artificial podem ser alimentados, quantos petabytes de dados podem fluir a cada segundo. 

Um data center de 50 MW não é simplesmente o dobro de um de 25 MW — é uma plataforma de outra grandeza.

Optamos pela potência elétrica porque ela reflete, com mais precisão, a relevância estratégica de cada complexo. 

Área construída pode ser inflada por corredores e estruturas de suporte; racks podem variar em densidade e eficiência. A energia, porém, é a moeda universal da computação.

Neutros e hiperescaladores: dois modelos, uma mesma missão

Sob o mesmo teto conceitual — o de "grandes instalações que processam e armazenam dados" — convivem dois modelos de negócio fundamentalmente distintos.

Os neutros — também chamados de colocation providers — são, em essência, grandes condomínios digitais. 

Eles constroem a infraestrutura física e alugam espaço, energia e conectividade para múltiplas empresas que ali instalam seus próprios servidores. 

Não há exclusividade. Em um mesmo data center neutro, podem conviver bancos, startups, operadoras de telecom e gigantes da tecnologia. 

Entre os sete que listaremos, Ascenty, Scala, ODATA, Elea Data Centers e Equinix operam predominantemente sob esse modelo.

Os hiperescaladores, por outro lado, são as gigantes da computação em nuvem — AWS, Microsoft Azure, Google Cloud — que constroem seus próprios data centers para uso exclusivo. 

Nesses complexos, não há espaço para aluguel. Toda a capacidade instalada é dedicada a sustentar os serviços de nuvem da própria empresa. 

A escala dos hiperescaladores é a maior do setor. Enquanto um data center neutro pode ter dezenas de megawatts, um campus de hiperescalador frequentemente ultrapassa a casa dos 100 MW. Leia aqui: Robôs colaborativos: 5 bilhões de dólares em 2031 e como será o futuro das indústrias.

A distinção não é apenas técnica. Ela revela camadas do ecossistema digital que passam despercebidas. 

Para uma startup que precisa escalar rapidamente, optar por um hiperescalador é uma escolha natural. 

Para uma empresa com dados sensíveis — como um banco —, um data center neutro pode oferecer mais controle. No Brasil, essa complementaridade tem impulsionado o setor como um todo.

Conclusão

Então é isso: a internet não é uma nuvem. É concreto, aço, fibra óptica e toneladas de servidores espalhados por prédios enormes que consomem energia pra caramba. 

E o Brasil, que antes só consumia infraestrutura digital, virou protagonista – com direito a cabos submarinos em Fortaleza, leis que obrigam dados a ficarem por aqui e um mercado que cresce mais rápido do que a maioria dos países.

A LGPD deu o pontapé inicial. Os cabos submarinos deram a conectividade. A IA e o 5G estão acelerando tudo. 

E o critério pra medir quem é maior? Potência em MW, não área construída. Tem também os neutros, que alugam espaço pra geral, e os hiperescaladores, que constroem só pra eles – cada um com seu papel nesse ecossistema.

O Brasil tá na frente. Agora falta decidir se vai aproveitar essa vantagem ou deixar a janela se fechar.

E aí, o que você achou? Já tinha ideia de que tudo isso existia por trás dos seus cliques?

Compartilhe este texto, assim você colabora com meu trabalho.

Gratidão!

domingo, 2 de agosto de 2026

Fome e desigualdade social: duas faces da mesma moeda

A fome e a desigualdade social no Brasil é um paradoxo que não conseguimos explicar. 

O país produz toneladas de alimentos todo ano, mas ainda tem fila em banco de alimentos. Tem algo errado aí.

fome e desigualdade social


Nós produzimos alimento que daria para alimentar muito mais gente. Mas a fome continua. Como isso é possível? A fome não é um problema de escassez. 

O Brasil produz alimento suficiente para todos os seus habitantes. Mas isso não basta. Sem distribuição justa, sem acesso garantido e sem políticas sérias, a fome não vai embora.

A sensação de impotência diante de números tão brutais e isso é compreensível. Mas ignorar o problema não o faz desaparecer. 

Neste texto, vou te mostrar por que a fome persiste no Brasil, quais são suas causas e o que pode ser feito para superá-la.

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O que a fome realmente significa e como ela é medida

A fome não é apenas a ausência de comida na mesa. Ela se manifesta em diferentes níveis de gravidade e atinge populações de formas distintas. 

A Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) classifica a realidade dos domicílios em quatro níveis.

Segurança alimentar significa acesso pleno e regular aos alimentos. Insegurança leve surge quando há preocupação com o acesso futuro, comprometendo a qualidade da dieta. 

Já a insegurança moderada envolve redução na quantidade de alimentos e ruptura nos padrões de alimentação dos adultos.

O grau mais grave da insegurança alimentar é a fome propriamente dita. A qualidade da alimentação cai, a quantidade diminui e ninguém da casa escapa. É o esvaziamento da despensa.

A FAO usa um indicador chamado Prevalência de Subnutrição (PoU) para medir a fome no mundo. 

Ele estima quantas pessoas não consomem calorias suficientes para viver de forma saudável. 

A FAO define que um país sai do Mapa da Fome quando a subnutrição fica abaixo de 2,5%. Mas o economista Amartya Sen, Nobel de Economia, mostrou que a fome não é sobre falta de comida — é sobre falta de acesso. A fome é uma falha de distribuição.

Índices recentes da fome 

Os números melhoraram, mas o problema não acabou. Em 2024, o Brasil registrou 6,48 milhões de pessoas passando fome — o menor índice em duas décadas. 

Em um ano, dois milhões de brasileiros deixaram a fome. A segurança alimentar chegou a 75,8% dos lares em 2024, o melhor índice desde 2004. 

Foram 8,8 milhões de pessoas que passaram a ter comida na mesa em apenas doze meses.

Ainda há 28,5 milhões de brasileiros com insegurança alimentar. E 18,9 milhões de famílias continuam convivendo com essa realidade. 

Não são números abstratos. São pessoas reais, com histórias reais, que acordam sem saber se vão comer.

Evolução da Insegurança Alimentar no Brasil (2023–2024)

Indicador 2023 2024 Variação
Domicílios com Segurança Alimentar 72,4% 75,8% ▲ +3,4 p.p.
Insegurança Alimentar Leve 18,2% 16,4% ▼ -1,8 p.p.
Insegurança Alimentar Moderada 5,3% 4,5% ▼ -0,8 p.p.
Insegurança Alimentar Grave (Fome) 4,1% 3,2% ▼ -0,9 p.p.
Pessoas em Situação de Fome 8,47 milhões 6,48 milhões ▼ -23,5%

Fonte: Agência IBGE notícias 

Alterações dos índices 

O Brasil chegou a deixar o Mapa da Fome em 2013. Foi fruto de um esforço coordenado que começou nos anos 2000, com programas de transferência de renda e fortalecimento da agricultura familiar. Leia aqui: Como o El Niño pode afetar a agricultura no Brasil.

Mas a fome voltou. A trajetória do país no combate à fome é feita de idas e vindas.

Mas o cenário se deteriorou rapidamente. Infelizmente entre 2020 e 2022, o Brasil voltou ao Mapa da Fome. 

Para agravar ainda mais, em dois anos, o índice de fome entre famílias com crianças menores de 10 anos dobrou: de 9,4% em 2020 para 18,1% em 2022. 

O total de brasileiros nessa condição saltou de 19 milhões para 33 milhões.

Em dois anos, o índice de fome entre famílias com crianças menores de 10 anos saltou de 9,4% para 18,1%. O total de brasileiros nessa condição pulou de 19 milhões para 33 milhões.

O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome em 2025, e o relatório SOFI de 2026 confirmou a permanência. 

A insegurança alimentar severa caiu para 0,6% — o menor patamar da história. Foram 16,7 milhões de pessoas que deixaram essa situação entre 2023 e 2025. 

É uma conquista. Mas não é motivo para descanso. José Graziano da Silva, diretor do Instituto Fome Zero, afirma que a subalimentação no Brasil está em torno de 0,6% a 0,7% da população — menos de 1%.

Uma conquista significativa, mas que exige vigilância constante.

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Característica Dados
Responsável pelo Domicílio (Gênero) Mulheres: 59,9% / Homens: 40,1%
Responsável pelo Domicílio (Raça/Cor) Pardos: 54,7% / Brancos: 28,5% / Pretos: 15,7%
Renda Per Capita Até 1 salário mínimo: 66,1% dos domicílios
Zona (Urbana/Rural) Rural: 31,3% / Urbana: 23,2%
Faixa Etária (Crianças) 0 a 4 anos: 3,3% / 5 a 17 anos: 3,8%

Fonte: Agência IBGE

As causas estruturais da fome no Brasil

A fome não é um fenômeno natural. Ela é produzida por decisões políticas, econômicas e sociais. Entender suas causas é o primeiro passo para combatê-la de forma eficaz.

Desigualdade e concentração de renda

O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. A concentração de renda alimenta a fome. A renda mal distribuída é a raiz da fome. 

Enquanto poucos acumulam, a maioria não tem poder de compra para acessar alimentos de qualidade. 

O mercado de trabalho, com salários baixos e informalidade crescente, só aprofunda esse fosso.

O economista Amartya Sen já dizia: a fome não é falta de comida. É falta de acesso.

A fragilidade das políticas públicas

A ausência ou o desmonte de políticas públicas agrava o problema. O combate à fome passa por duas frentes essenciais: a transferência de renda, como o Bolsa Família, e o fortalecimento da agricultura familiar. 

Quando essas políticas são mantidas, a fome recua. Quando são enfraquecidas, ela volta com força.

O Plano Brasil Sem Fome, lançado em 2023, representa uma tentativa de recompor a estrutura de combate à fome. Mas sua eficácia depende de continuidade e de articulação intersetorial.

Desperdício e logística

O Brasil desperdiça cerca de 30% dos alimentos que produz. As perdas ocorrem no transporte, no armazenamento e no consumo. 

Enquanto isso, milhões passam fome. A ineficiência logística é um escândalo silencioso.

As mudanças climáticas já afetam a produção, especialmente no Semiárido, onde a seca é velha conhecida.

Sem políticas de adaptação, as populações rurais ficam ainda mais vulneráveis.

O papel das políticas públicas no combate à fome

A saída do Brasil do Mapa da Fome em 2025 e sua permanência em 2026 são resultados diretos de políticas públicas consistentes. Não há milagre. Somente através de planejamento, investimento e iniciativa pública.

O Bolsa Família é a principal ferramenta contra a fome no Brasil. Ele garante que as famílias mais pobres tenham ao menos o básico para comer. 

A ampliação do programa e a busca ativa por famílias em situação de vulnerabilidade foram decisivas para a redução da fome.

Agricultura familiar e compras públicas

A agricultura familiar abastece grande parte da mesa do brasileiro. O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) garante que esses produtores tenham compradores — e abastece escolas, hospitais e creches com comida de verdade. 

Leia aqui: Estatística vs. Realidade: O Retrato Completo da Desigualdade nas Escolas do Brasil

Articulação intersetorial

O combate à fome exige articulação entre saúde, educação, assistência social, agricultura e economia. A criação do Sisan foi um passo importante nessa direção.

A ministra Fernanda Machiaveli disse algo que merece ser repetido: a fome não é inevitável. 

Quando o governo prioriza o combate à fome, à pobreza e à desigualdade, os avanços vêm.

As consequências da fome para a sociedade

A fome não é apenas uma questão moral. A fome não fica só na barriga. Ela prejudica a saúde, atrapalha o aprendizado e trava o desenvolvimento do país.

Saúde e desenvolvimento infantil

A desnutrição infantil é uma das marcas mais profundas que a fome deixa. Crianças mal alimentadas têm o corpo e a mente comprometidos. Isso reflete no desempenho escolar e fecha portas para o futuro.

O ciclo da pobreza

A fome e a pobreza se retroalimentam. Quem passa fome tem menos energia para trabalhar e estudar. Isso reduz sua capacidade de gerar renda e perpetua o ciclo de exclusão social. Leia aqui: Como ensinar ética e responsabilidade social.

A fome não é um acidente. É o resultado de escolhas que privilegiam o capital em detrimento da vida. E, como toda escolha, pode ser revertida.

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Conclusão

A fome no Brasil é um fenômeno complexo, mas compreensível. Ela não é fruto da escassez de alimentos, mas da má distribuição, da desigualdade e da fragilidade das políticas públicas. 

O país já provou que é possível sair do Mapa da Fome — e que também é possível voltar a ele.

Os números de 2026 animam: 0,6% de insegurança severa, 16,7 milhões de pessoas deixando a fome. 

Mas 28,5 milhões de brasileiros ainda não têm acesso pleno à comida. A luta não acabou.

A fome não acabou. Ela recuou, mas segue ameaçando milhões de vidas. 

Enquanto houver uma pessoa com fome no Brasil, o problema não acabou — mesmo que o país esteja fora do mapa. 

A fome entra na sala de aula todos os dias, no aluno que não aprende porque não comeu. Você já reparou como isso afeta o futuro das crianças?

Deixe seu comentário e compartilhe este texto com outros professores. Precisamos falar sobre isso.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A remada viking e a cultura nórdica que invadiu a Copa do Mundo

A remada viking nunca será esquecida. Os jogadores da Noruega sentados no gramado, remando em perfeita sincronia, enquanto a torcida vibrava. 

remada viking Halland remando paisagem fria junto com seu time em barco viking
Feita por IA


Aquela comemoração – batizada de “remada viking” – não era apenas uma coreografia ensaiada. Era um gesto de 1.200 anos de história.

A Copa do Mundo de 2026 reservou um confronto que poucos esperavam: Brasil e Noruega nas oitavas de final. 

E, para surpresa de muitos, os vikings modernos levaram a melhor. Dois gols de Erling Haaland decretaram a eliminação brasileira

Mas, além da dor da derrota, a partida deixou uma lição: a cultura nórdica, mesmo a milhares de quilômetros da Escandinávia, segue viva e pulsante.

Os noruegueses não estavam apenas comemorando um gol. Eles estavam evocando seus ancestrais. 

Os mesmos que, séculos atrás, cruzaram os mares em navios longos, desafiaram tempestades e fundaram cidades na Europa, na Rússia e até na América do Norte

A remada não era um gesto qualquer. Era um tributo à herança de um povo que transformou o mar em estrada e a aventura em modo de vida.

A cultura viking, muitas vezes reduzida a imagens de guerreiros sanguinários com capacetes com chifres, é na verdade um dos capítulos mais fascinantes da história humana. 

Neste texto, vou mostrar a história por trás da remada viking que viralizou na Copa, a mitologia e os rituais dos antigos nórdicos, o que a ciência já desvendou sobre eles e como a cultura viking segue viva hoje em festivais pela Noruega, Islândia e Suécia.

História mitológica dos vikings

Para os vikings, o mundo não era um acaso. Era um palco povoado por deuses, gigantes e criaturas fantásticas. A mitologia nórdica não era um passatempo – era a própria estrutura da realidade.

No centro de tudo estava Yggdrasil, a árvore do mundo, cujas raízes conectavam os nove reinos. 

No topo, Asgard, morada dos deuses. No meio, Midgard, o mundo dos humanos. E, nas profundezas, 

Hel, o reino dos mortos. Cada elemento da natureza – o trovão, a colheita, a guerra – era controlado por uma divindade.

A Cultura viking

A cultura viking era profundamente ritualística e comunitária. Os banquêtes, por exemplo, não eram apenas refeições: eram eventos centrais da vida social, usados para reforçar hierarquias, ratificar leis e celebrar desde casamentos até funerais

As joias que usavam não eram meros adornos; exibiam afiliação religiosa, como o martelo de Thor, símbolo de proteção e poder.

Rituais dos vikings

Os rituais vikings eram intensos e, muitas vezes, sangrentos. O Yule, festival de doze dias que marcava o solstício de inverno, era dedicado aos deuses Thor e Freyr

As famílias levavam comida e cerveja especial às tumbas dos ancestrais e realizavam banquetes diários

O sacrifício de animais – especialmente cavalos, considerados sagrados – era comum. O sangue era espalhado nas paredes, nas estátuas dos deuses e nos próprios participantes, num ritual conhecido como blót.

Comidas típicas 

A mesa viking era mais variada do que se imagina. Cevada, repolho e nabo eram comuns nas despensas.

Durante o Yule, o prato principal era a carne de animais consagrados: um jabalí para Freyr (deus da fertilidade) e uma cabra para Thor.

A bebida também tinha papel central: a cerveja especial, chamada Jólaöl (cerveja de Yule), era consumida em grandes quantidades, com brindes ritualísticos aos deuses para garantir uma boa colheita no ano seguinte

História científica dos vikings

A ciência já desmontou muitos dos mitos que cercam os vikings. O mais famoso deles: os capacetes com chifres. Nunca existiram. 

O único capacete original da Era Viking já encontrado tem um desenho simples, sem qualquer chifre

A imagem do guerreiro com chifres foi uma invenção posterior, popularizada por óperas e romances do século XIX.

O responsável por remodelar e popularizar a "remada viking" na Copa do Mundo de 2026 é o professor norueguês Ole Frøystad. 

Conhecido como "Senhor Row Row" (ou Mr. Row Row), ele é professor do ensino fundamental e teve a ideia de criar uma coreografia simples e marcante para a torcida norueguesa, que estava de volta a uma Copa após 28 anos de ausência.

A inspiração veio de um cântico do clube norueguês Rosenborg, que dividia o nome do time em três sílabas ("Ro-sen-borg"), e da famosa comemoração da torcida da Islândia na Eurocopa de 2016

A coreografia foi criada em dezembro de 2025 e ganhou ainda mais força quando os jogadores, incluindo estrelas como Erling Haaland e Martin Ødegaard, passaram a repetir o gesto nas comemorações dentro de campo.

Embora faça referência à herança cultural dos vikings, a comemoração é, na verdade, uma criação recente, fortemente aceita pela maioria dos noruegueses, mas com alguns críticos que a definiram como "artificial".

Guerras

Os vikings eram guerreiros habilidosos, mas a guerra não era o único objetivo. Desde a infância, o combate era estimulado, mas a estratégia marítima e a navegação eram igualmente valorizadas

Seus navios longos (drakkars) permitiam atravessar mares e subir rios rasos, dando-lhes mobilidade que nenhum exército europeu da época possuía.

Comércio

O comércio foi tão importante quanto a guerra. Os vikings construíram uma vasta rede que ligava o Atlântico Norte ao Mar Báltico, estendendo-se até a Rússia e o mundo árabe

Peles, mel e escravos eram trocados por sal, corantes e especiarias. A rota do rio Volga, por exemplo, abriu o norte da Europa ao comércio com o Império Bizantino e o mundo islâmico.

Colonização

Os vikings foram colonizadores notáveis. Estabeleceram assentamentos nas Ilhas Britânicas, Ilhas Feroé, Islândia, Groenlândia e até na Normandia

Além disso, foram os primeiros europeus a pisar na América do Norte – cerca de 400 anos antes de Cristóvão Colombo. No leste europeu, os vikings (conhecidos como rus) deram origem ao nome Rússia.

Barbaridades

Sim, os vikings cometeram atrocidades. Saquearam mosteiros, escravizaram populações e realizaram sacrifícios humanos em algumas ocasiões. 

Mas não eram mais bárbaros do que outros povos da época. A imagem do viking como um selvagem sem cultura é um exagero criado por cronistas cristãos que viam os nórdicos como uma ameaça pagã. 

Na verdade, os vikings tinham um código de honra, uma literatura rica (as sagas) e um sistema jurídico sofisticado.

Festivais vikings nos países nórdicos hoje

A cultura viking não ficou no passado. Hoje, festivais pela Escandinávia mantêm viva a chama dos ancestrais.

Festival viking na Noruega

Na Noruega, o Karmøy Viking Festival é um dos maiores eventos do gênero. Realizado em junho, oferece arco e flecha, música viking, artesanato e comida tradicional, com recriações de batalhas e da vida em uma fazenda viking.

Islândia tem festival viking mais famoso dos países nórdicos 

A Islândia abriga um dos festivais mais autênticos, o Viking Festival em Hafnarfjörður. O evento de quatro dias inclui combates ao vivo, demonstrações de artesanato tradicional e adivinhação. Os islandeses levam a herança nórdica a sério, e o festival atrai visitantes do mundo inteiro.

Suécia também tem seus festivais com inspirações vikings

Na Suécia, o Midsommar (solstício de verão) tem raízes pagãs que remontam à Era Viking. 

Embora não seja um festival exclusivamente viking, as tradições de dançar em volta da fogueira e celebrar a fertilidade da terra são reminiscências diretas dos rituais nórdicos antigos.

conclusão

Mesmo com a eliminação do Brasil, não podemos negar que a cultura viking é, no mínimo, extraordinária. 

A remada que vimos em campo não foi apenas uma comemoração futebolística – foi a prova de que um povo, mesmo após mil anos, ainda se orgulha de suas raízes.

Os vikings foram mais do que guerreiros. Foram exploradores, comerciantes, poetas e construtores de impérios. 

Sua mitologia ainda nos fascina, seus rituais nos intrigam e sua história nos ensina que o mar não é um fim, mas um começo.

E, se a Noruega nos venceu em campo, talvez tenha nos dado, em troca, uma lição valiosa: a cultura não se apaga. Ela rema. E continua navegando.

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Leia também: Imigração japonesa e como professores brasileiros devem se inspirar na educação do Japão

quarta-feira, 10 de junho de 2026

O grande teatro da ONU e como as metas de 2030 foram sabotadas antes de começar


Agenda 2030 não é um tratado qualquer. É um plano que 193 países assinaram em 2015, prometendo transformar o mundo até o final desta década. 

bandeiras de vários países

Eu costumo acompanhar a evolução dessa agenda. Mas confesso que não estou muito confiante.

Acabar com a pobreza, garantir água potável para todos, frear as mudanças climáticas. Em teoria, soa ambicioso. Mas na prática, o cenário é outro.

Em 2024, a organização divulgou que apenas 17% das metas estavam no caminho certo para serem cumpridas até 2030. Quinze por cento, pasmem, apresentavam retrocesso.

O que está em jogo, no entanto, não é apenas a reputação da ONU. É o acesso à água limpa na África subsaariana. 

É a fome que voltou a subir no Iêmen e na Síria. É o plástico que continua invadindo os oceanos enquanto líderes mundiais discursam sobre sustentabilidade.

Neste texto, vou mostrar o que os relatórios oficiais não contam sobre a Agenda 2030, onde o mundo já falhou e o que ainda pode ser feito antes do sino bater em 31 de dezembro de 2030.

O que é a agenda 2030 e por que ela existe

Antes de falar em atrasos e frustrações, é necessário lembrar do que exatamente estamos tratando. 

A Agenda 2030 não nasceu do nada. Ela é fruto de uma conferência da ONU realizada em 2015, na cidade de Nova York, onde 193 países sentaram à mesma mesa e assinaram um compromisso chamado "Transformando Nosso Mundo: A Agenda de Desenvolvimento Sustentável". 

Era um gesto de otimismo pós-crise financeira de 2008, com a economia mundial ainda tentando se reerguer.

A ideia central era simples, mas de execução monstruosa: estabelecer 17 grandes objetivos e 169 metas menores para serem cumpridos até o fim de 2030. 

Acabar com a miséria, garantir educação de qualidade para todos, alcançar a igualdade de gênero, assegurar água limpa e saneamento básico universal. Parece o céu, não é mesmo?

Cada país adaptaria as metas à sua realidade, mas ninguém sairia de trás da mesa sem se comprometer com o básico.

O que muita gente ignora, no entanto, é que a Agenda 2030 não é um tratado com força de lei. 

Não há exército da ONU para obrigar ninguém a cumprir nada. O que existe é pressão diplomática, relatórios bienais e encontros sem fim...

Para alguns países, isso é suficiente. Para a maioria, não é. E é aí que a conversa começa a ficar interessante.

Os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) em síntese

Vou resumir os ODS de forma direta, porque a lista completa enche três páginas. O primeiro deles é o fim da pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares. 

O segundo é fome zero e agricultura sustentável. Depois vêm saúde e bem-estar, educação de qualidade, igualdade de gênero, água potável e saneamento.

Energia limpa e acessível, trabalho decente, crescimento econômico, indústria e inovação, redução das desigualdades, cidades sustentáveis, consumo responsável.

O que pouca gente nota é a ordem dos fatores. Os primeiros objetivos tratam de necessidades humanas básicas. 

Só lá pelo nono ou décimo item entram inovação e tecnologia. E o clima, que o noticiário tanto martela, aparece apenas no décimo terceiro lugar. 

Essa hierarquia revela uma escolha política clara: antes de salvar o planeta, os redatores da agenda queriam salvar pessoas da miséria. 

A crítica que ouço de alguns colegas ambientalistas é justamente essa: as mudanças climáticas deveria estar no topo, porque sem planeta habitável, pobreza ou riqueza deixam de fazer sentido.

O pacto global e o prazo que expira em 2030

O nome bonito é "Pacto Global para o Desenvolvimento Sustentável". Na prática, é o reconhecimento de que nenhum país resolverá sozinho problemas que atravessam fronteiras. 

O plástico que polui o Pacífico não foi jogado por um único governo, concorda? 

O carbono que esquenta o planeta não foi emitido por apenas uma nação. Por isso, o pacto insiste em parcerias público-privadas, transferência de tecnologia entre países ricos e pobres, além de financiamento internacional para projetos verdes em nações menos desenvolvidas.

O problema é que o prazo expira em 31 de dezembro de 2030. E o último relatório da ONU, publicado em setembro de 2025, mostrou que o mundo está longe de alcançar 70% das metas. 

Alguns objetivos, como a redução das desigualdades sociais dentro de cada país, estão piores do que em 2015. 

A pandemia de covid-19, que ninguém havia previsto quando a agenda foi escrita, atrasou programas de vacinação e fechou escolas por meses. 

A guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, desviou bilhões de dólares que seriam usados em cooperação internacional. 

E agora, com a escalada dos conflitos no Oriente Médio, o dinheiro para sustentabilidade parece cada vez menor.

O economista Jeffrey Sachs, que assessorou a ONU na criação da Agenda 2030, admite que o prazo foi otimista demais. 

Sachs argumenta que os países ricos nunca destinaram os recursos prometidos, que as empresas multinacionais boicotaram metas mais ambiciosas de consumo responsável e que a falta de um órgão fiscalizador com poder de multa tornou o compromisso ainda mais frouxo.

Os desafios que ainda impedem o cumprimento das metas

O relatório mais recente da ONU sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, divulgado em 2025, escancarou uma verdade que muitos relatórios anteriores tentavam maquiar com gráficos bem diagramados. 

Apenas 35% das metas estão no caminho certo. Dezoito por cento regrediram em relação a 2015 .

O secretário-geral António Guterres chamou a situação de "emergência global do desenvolvimento".

Mais de 800 milhões de pessoas continuam na pobreza extrema. Os níveis de dióxido de carbono atingiram a maior marca em 2 milhões de anos. Mais de 120 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas — o dobro de 2015 .

A conclusão que tiro desses números não é boa: o prazo de 2030 vai chegar, e a ONU vai fazer o que sempre fez. 

Lançar outro documento, estabelecer novas metas, empurrar o problema para a próxima década. 

Enquanto isso, quem vive na pele as consequências da desigualdade e da guerra continua esperando soluções que nunca vêm.

Desigualdade entre países ricos e pobres

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) lançou em maio de 2025 o Relatório do Desenvolvimento Humano, e o título já entregava o tom: "Uma questão de escolha". 

Pela primeira vez desde 1990, o progresso global do IDH desacelerou de forma preocupante. E, pelo quarto ano consecutivo, a desigualdade entre países de IDH muito alto e países de IDH baixo aumentou .

A notícia que rodou os portais em maio de 2025 foi direta: estamos revertendo uma tendência histórica de redução das desigualdades entre nações ricas e pobres. 

Enquanto países desenvolvidos mantêm sistemas de proteção social que cobrem quase 90% de sua população, nações de baixa renda mal conseguem proteger 2% de seus cidadãos com políticas sociais efetivas .

O administrador do PNUD, Achim Steiner, afirmou que o mundo está mais dividido, mais inseguro e mais vulnerável a choques econômicos e ecológicos. 

A conta dessa desigualdade, como sempre, chega primeiro para os mais pobres. Enquanto os países ricos discursam sobre cooperação internacional, o financiamento para o desenvolvimento caiu 7,1% em 2024, após cinco anos de crescimento.

Crises climáticas e guerra: fatores que a agenda não previu

Quando a Agenda 2030 foi desenhada, em 2015, o mundo vivia um momento de relativa estabilidade geopolítica. 

A guerra na Ucrânia não havia começado. O conflito no Oriente Médio não tinha a escala atual. 

Ninguém previa que rotas marítimas vitais seriam fechadas e que o comércio global entraria em modo de pânico.

A secretária-geral da Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), Rebeca Grynspan, fez uma declaração em setembro de 2025 que resume o momento: "Não víamos disrupções sustentadas nas artérias do comércio global desde o fechamento do Canal de Suez em 1967" .

O que mudou? A guerra na Ucrânia complicou a navegação no Mar Negro. Os ataques no Mar Vermelho desviaram navios para a rota do Cabo da Boa Esperança, adicionando 21 dias em cada viagem de ida e volta. 

O Estreito de Ormuz, por onde passa 34% do petróleo exportado por via marítima, vive sob risco constante de escalada entre Irã e Israel .

Um estudo publicado no periódico Transportation Science em janeiro de 2025 quantificou o estrago. 

Antes da invasão, o trigo ucraniano era vendido a 270 dólares por tonelada. O preço saltou para 500 dólares em alguns países. 

Agricultores ucranianos, que antes ganhavam 270 dólares por tonelada, passaram a receber apenas 100 dólares, abaixo do custo de produção. O prejuízo total no setor agrícola ucraniano chegou a 70 bilhões de dólares.

O impacto regional foi imediato. Países do Oriente Médio e Norte da África, altamente dependentes do trigo ucraniano, enfrentaram escassez e alta de preços. A insegurança alimentar, que já era grave, piorou. 

E o efeito cascata atingiu também o comércio de gás natural liquefeito, com navios do Catar desviados para a rota da África para evitar o Mar Vermelho, atrasando entregas na Europa e elevando custos .Cheguei a pensar que a agenda 2030 foi escrita para um mundo que não existe mais. 

Como as guerras afetam as metas da ONU 

soldados
imagem meramente ilustrativa-créditos pexel

O conflito em Gaza, por sua vez, produziu um retrocesso de desenvolvimento chocante. Um relatório conjunto do PNUD e da UNESCWA estima que a guerra fez o Estado da Palestina regredir ao nível de desenvolvimento equivalente ao ano de 1955, 69 anos atrás. 

O PIB se contraiu 35,1% em 2024. A pobreza alcançou 74,3% da população .

Achim Steiner, administrador do PNUD, advertiu que, em meio ao sofrimento imediato e à terrível perda de vidas, também se desenvolve uma grave crise de desenvolvimento que põe em perigo o futuro dos palestinos para as gerações vindouras

Em Gaza, a economia se contraiu 83% em 2024. Os preços dos alimentos aumentaram 450% em um ano.

A escalada entre Irã e Israel, que muitos analistas consideram o conflito mais perigoso da região, piorou ainda mais o cenário. 

O secretário-geral da ONU, António Guterres, advertiu que qualquer intervenção militar adicional poderia ter enormes consequências para a paz e a segurança internacional .

O resultado de tudo isso é um desvio maciço de recursos. A ajuda humanitária e os fundos para o desenvolvimento estão sendo redirecionados para emergências bélicas. 

O ODS 17, de parcerias globais para o desenvolvimento sustentável, está sendo minado pela fragmentação geopolítica. 

As tarifas médias sobre as exportações dos países menos desenvolvidos dispararam de 9% para 28% em 2025 .

Um relatório conjunto do Banco Mundial e da ONU, Pathways for Peace, já advertia em 2018 que mais da metade dos pobres do mundo viveria em países afetados por altos níveis de violência até 2030.

A previsão se mostrou assustadoramente precisa. O mundo se rearma como não se via desde a Guerra Fria. 

O gasto militar global alcançou US$ 2,7 trilhões em 2024, o maior nível já registrado, com um salto de 9,4% em relação ao ano anterior .

A pergunta que me faço é: como esperar cumprir metas de desenvolvimento sustentável enquanto bilhões de dólares são desviados para financiar guerras e arsenais nucleares?

Metas irrealistas da agenda 2030 ou falta de vontade política?

O caso da energia limpa é o exemplo mais didático dessa desconexão entre discurso e prática. O ODS 7 prometia "energia limpa e acessível para todos" até 2030. 

António Guterres, em evento no Conselho Econômico e Social da ONU, lembrou que cerca de um bilhão de pessoas no mundo não têm acesso a nenhum tipo de eletricidade. 

Três bilhões ainda cozinham e aquecem suas casas sem energia limpa ou tecnologias eficientes.

No ritmo atual, a própria ONU admite que 660 milhões de pessoas continuarão sem acesso à energia elétrica em 2030. 

Quase 2 bilhões de pessoas seguirão dependendo de combustíveis poluentes para cozinhar. Traduzindo: a meta foi falhada antes mesmo de começar a ser implementada.

A conclusão é amarga: a ONU sabia, desde 2015, que os números não fechavam. O financiamento necessário para os ODS era estimado em 2,5 trilhões de dólares por ano antes da pandemia. 

Depois da covid-19, o valor subiu para 4,2 trilhões de dólares. Sabiam que os países ricos não iriam desembolsar esse montante. Sabiam que as guerras desviariam recursos. Sabiam e mesmo assim mantiveram as metas.

Dinheiro mal investido: projetos que poderiam esperar

O financiamento climático global prioriza projetos de mitigação em países de renda média. Energia limpa e transporte sustentável recebem a maior parte dos recursos.

A adaptação, essencial para proteger comunidades pobres contra enchentes e secas, fica com um volume muito menor de dinheiro. 

Estudos citados por pesquisadores da PUC-Rio confirmam que a distribuição de ajuda internacional frequentemente segue interesses estratégicos, políticos ou históricos, em detrimento do nível de pobreza

Os mais vulneráveis - países de baixa renda na África e na Ásia - são os que menos recebem apoio. É uma inversão de prioridades que me parece moralmente indefensável.

O diretor executivo do Programa Mundial de Alimentos, David Beasley, advertiu que "fomes de proporções bíblicas" podem estar a caminho. 

A ONU estima que mais 130 milhões de pessoas podem se juntar às fileiras dos famintos. E ainda assim o dinheiro vai para projetos que, embora importantes, poderiam esperar. 

Conclusão

A verdade que os relatórios da ONU escondem é simples: na minha humilde opinião a Agenda 2030 foi um fracasso anunciado. 

As metas eram perfeitas no papel, mas ninguém colocou dinheiro em cima da mesa. Os países ricos cortaram a ajuda ao desenvolvimento. 

Quantas crianças precisarão passar fome até que o mundo decida agir de verdade? A ciência já deu todas as respostas. O que falta é vergonha na cara.

O futuro não vai ser mudado por diplomatas em Nova York. Vai ser mudado por gente como você, que leu até aqui e resolveu não ficar calado.

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