O Plano Clima foi lançado com festa em Brasília. A ministra Marina Silva discursou, os ministros compareceram, a imprensa noticiou como se fosse a salvação da pátria.
Só que ninguém perguntou o óbvio: de onde vai sair o dinheiro?
O governo prometeu reduzir as emissões entre 59% e 67% até 2035. Bonito no discurso. Mas, na prática, o Ministério do Meio Ambiente admitiu que não tem uma previsão concreta do custo total para cumprir as metas.
Eu acompanho a política ambiental brasileira há anos. Já vi promessas de financiamento que nunca chegaram.
E agora, com um arcabouço fiscal que já aperta as contas públicas, acreditar que 25 bilhões anuais vão aparecer do nada, é no mínimo otimista demais.
Neste texto, vou mostrar por que o Plano Clima pode não sair do papel. Os cortes bilionários, as prioridades conflitantes do governo, falta de planejamento para a transição energética, o "desfinanciamento" da moradia e da infraestrutura, e a vulnerabilidade da agricultura familiar, que fica exposta a um plano sem recursos concretos.
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O risco de o plano clima não sair do papel
O governo lançou o Plano Clima com pompa, mas a pergunta que não quer calar é simples: como pagar?
O documento deixa de fora uma estimativa do orçamento necessário para cumprir suas próprias metas.
A Estratégia Transversal de Meios de Implementação, que deveria explicar como as metas seriam financiadas, não informa valores.
O secretário nacional de Mudança do Clima, Aloisio Melo, admite que seria desejável concluir as estimativas de custo até o final de 2026, mas não há prazo definido.
O governo diz que o cálculo ainda é preliminar e que não faz sentido estimar um valor global.
Esse discurso parece mais uma desculpa para evitar o que realmente importa: mostrar de onde virão os bilhões prometidos.
Ana Flavia Corleto, pesquisadora do CPI em parceria com a PUC-Rio, reconhece que o plano cumpre um papel relevante ao mapear instrumentos financeiros, mas alerta para as lacunas quanto ao montante de recursos necessários para implementar todas as ações.
O Observatório do Clima foi além: seu coordenador, Cláudio Angelo, afirma que o plano “está longe de fazer a transformação econômica de que precisamos para dar a contribuição justa do Brasil para um mundo de 1,5ºC”.
Mesmo os recursos anunciados, como os R$ 27,5 bilhões do Fundo Clima para 2026, não garantem a continuidade do plano.
Esse valor cobre apenas a primeira etapa. E o governo já admitiu que os investimentos variam entre 25 e 30 bilhões por ano.
A Folha de S.Paulo já apontou que o arcabouço fiscal impossibilita que o país aloque recursos para o meio ambiente no patamar que precisa.
Somam-se a isso as contradições internas. Enquanto o plano promete reduzir emissões, o setor de energia pode vê-las crescer até 14% até 2035.
A agropecuária figura entre os setores com maior participação nas emissões nacionais. No entanto, as metas estabelecidas para o setor no Plano Clima são menos rigorosas do que as de outras áreas da economia.
O desmatamento, que responde por uma parcela significativa das emissões do agro, não foi incluído nas metas setoriais de forma direta.
O plano prevê para o setor uma variação que vai de 7% de redução a 2% de aumento nas emissões até 2035.
Essa margem ampla, na prática, permite que as emissões do setor permaneçam estáveis ou até cresçam na próxima década.
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Cortes orçamentários e a priorização do Plano Clima
Enquanto o governo federal promete 27,5 bilhões para o Plano Clima em 2026, as pastas que realmente sustentam a vida do brasileiro, fica em segundo plano.
No fim de maio de 2026, o governo anunciou um bloqueio adicional de 22,1 bilhões no orçamento.
O Ministério da Defesa perdeu 4,6 bilhões. O das Cidades, 3,3 bilhões. O da Educação, R1,6 bilhão. O dos Transportes, 1,6 bilhão e o da saúde 1 bilhão.
Desoneração tributária e a ausência de estímulo ao setor produtivo
As grandes empresas brasileiras pedem alívio na carga tributária há anos. Redução de impostos poderia gerar empregos, baratear produtos e estimular a competitividade.
Transição energética: metas vagas e ausência de cronograma
O Brasil tem potencial solar e eólico de sobra. Usinas de energia limpa poderiam gerar emprego, baratear a conta de luz e reduzir emissões.
Mas o documento não estabelece um cronograma claro para a transição energética.
As metas para participação de renováveis na matriz elétrica são de 82,7% em 2030 e entre 82,7% e 86,1% em 2035 – números que ficam abaixo dos 88% já registrados em 2024.
Na prática, o plano se apoia em números que o Brasil já alcançou, deixando espaço para que térmicas fósseis continuem operando.
Moradia como investimento produtivo e o custo de oportunidade do Plano Clima
O déficit habitacional no Brasil ainda é de 5,7 milhões de moradias. O número caiu nos últimos anos graças ao Minha Casa, Minha Vida, que entregou 923.851 moradias nesse período.
Ou seja: o programa funciona. Mas, em vez de ampliá-lo, o governo bloqueia recursos. O Fundo de Arrendamento Residencial, principal fonte do programa, perdeu quase metade de sua verba.
A moradia gera emprego, movimenta a construção civil, reduz custos com saúde pública e melhora a qualidade de vida.
Cada família que sai do aluguel excessivo ou da habitação precária é uma família que vive melhor, que gasta menos, que adoece menos.
O Plano Clima é necessário, mas é incerto. As metas são ambiciosas, os prazos são longos e os recursos, duvidosos. A moradia, ao contrário, tem resultado comprovado, impacto imediato e benefício direto.
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Adaptação da agricultura familiar e os limites do Plano Clima
O Plano Clima Setorial de Adaptação da Agricultura Familiar reconhece um fato incômodo: os mais pobres do campo são os mais expostos aos efeitos das mudanças climáticas.
A agricultura familiar representa 76,8% dos estabelecimentos agropecuários e responde por 66% da ocupação no meio rural, mas ocupa apenas 23% da área total.
E mais de 90% desses estabelecimentos não dispõem de irrigação. Dependem da chuva. E a chuva já não é mais confiável.
O plano reúne 22 políticas públicas já existentes. Crédito rural, assistência técnica, compras públicas e agroecologia.
Tudo junto, como um grande guarda-chuva. O esforço é louvável. Mas o risco é que o plano funcione mais como um inventário de políticas do que como um mecanismo efetivo de governança.
A natureza dos riscos é ampla. As mudanças climáticas não afetam somente a produção agrícola, mas também a infraestrutura, o acesso à água, a logística e a permanência das populações no campo.
Estudos internacionais mostram que pequenos produtores rurais estão entre os grupos mais expostos aos impactos climáticos.
O relatório da FAO aponta que, mesmo em cenários otimistas, a adaptação pode não ser capaz de evitar perdas e danos em populações rurais vulneráveis.
Conclusão
O Plano Clima é um documento bonito, bem escrito e repleto de boas intenções. Mas bonito não é suficiente.
O governo promete bilhões que não tem, para metas que não sabe como cumprir, enquanto corta recursos de áreas que já estão no limite.
Saúde, educação, moradia, infraestrutura – tudo isso perde espaço para um plano que ainda não tem orçamento definido e que, na prática, já nasce contraditório.
A conta da omissão será paga na mesa do consumidor, na fila do hospital, na casa improvisada e na roça que secou.
Enquanto o governo discursa sobre o clima, o brasileiro comum sente no bolso o peso de uma economia que patina e de um Estado que prioriza o que não sabe financiar em vez de investir no que realmente transforma vidas.
O clima é urgente, sim. Mas a fome, o desemprego e a falta de teto também são.
Agora me diga: você acredita que o Plano Clima vai sair do papel? Ou este é mais um plano que vai mofar na gaveta enquanto o país afunda em promessas?
Deixe sua indignação nos comentários e compartilhe este texto. Quanto mais gente cobrar transparência, menor a chance de esse plano ficar para enfeite.



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Professora Camila Teles