O Brasil quer ser o paraíso dos data centers. E não é por acaso: matriz energética limpa, incentivos fiscais, 40% dos investimentos do setor na América Latina.
O governo criou o Redata, um regime especial que reduz impostos para quem opera com fontes renováveis e comprova eficiência hídrica.
Tudo parece certo para que o país se torne um hub global de infraestrutura digital sustentável.
Só que os releases oficiais escondem um detalhe. Um estudo publicado em 2026 revelou que o cluster de data centers de São Paulo consome 16,1 milhões de metros cúbicos de água por ano — o suficiente para abastecer mais de 100 mil residências.
O dado mais preocupante veio do pesquisador Guangda Liang, da Queen Margaret University: mais de 46% desse consumo é água "virtual". Ela não sai das torneiras dos data centers.
Evapora dos reservatórios das hidrelétricas que geram a eletricidade consumida por eles.
Cada kWh usado significa mais água perdida num sistema que já sofre com secas severas.
Neste texto, vou mostrar como a expansão dos data centers no Brasil cria um ciclo vicioso entre energia, água e clima — e por que a conta dessa "nuvem" vai cair sobre as cidades e as pessoas.
Data centers e o consumo de água na região metropolitana de São Paulo
Um estudo publicado na Cambridge Prisms: Water mapeou o consumo de água do cluster de data centers de São Paulo, um dos maiores da América Latina.
Ela chama atenção para um fato que pouca gente conhece: a maior parte das empresas do setor não torna públicos os dados detalhados do que realmente consomem.
Menos de um terço dos operadores acompanha o Índice de Eficiência Hídrica. E, quando divulgam números, quase nunca separam o que é uso direto do que é uso indireto.
A professora Ana Barros, da Universidade de Illinois, colaborou com um estudo que expõe a falta de transparência do setor.
Ela mostra que a maioria das empresas de data center não divulga dados claros sobre o quanto consome.
Menos de um terço dos operadores monitora o Índice de Eficiência Hídrica. E, quando publicam números, raramente separam o consumo direto do indireto.
Sem essa distinção, fica difícil medir o impacto real e cobrar responsabilidade.
A falta de transparência, argumenta Barros, impede que comunidades e planejadores urbanos se preparem para a pressão sobre os recursos hídricos locais.
O impacto local já é sentido. O cluster paulista está situado na bacia do Alto Tietê, uma região já classificada como de alto estresse hídrico pela Agência Nacional de Águas e pelo World Resources Institute.
Essa mesma bacia abastece mais de 20 milhões de pessoas e já passou pelo sufoco da crise hídrica de 2014-2015.
Adicionar uma demanda equivalente ao consumo de 100 mil residências em uma região que já vive com escassez periódica é um risco que ainda não foi levado a sério.
O ciclo vicioso: energia hidrelétrica, seca e demanda digital
O Brasil depende da água para gerar eletricidade. E os data centers dependem de eletricidade para operar.
A conexão entre água e energia parece óbvia, mas a pesquisa de Liang me mostrou um detalhe que me incomoda: o ciclo vicioso que se forma em períodos de seca.
Quando os reservatórios das hidrelétricas baixam, o sistema elétrico brasileiro é obrigado a recorrer às termelétricas — mais caras, mais poluentes e, muitas vezes, também consumidoras de água.
Os data centers, que funcionam 24 horas por dia, todos os dias do ano, não podem reduzir o consumo.
Isso coloca uma pressão extra sobre um sistema que já opera no limite.
O resultado é uma espiral perversa. Mais data centers exigem mais energia. Mais energia consome mais água das usinas. Menos água nos reservatórios força o acionamento de termelétricas.
E mais emissões de carbono aquecem o planeta, agravando as secas que reduzem ainda mais os reservatórios. O ciclo se realimenta e a conta chega para todos.
O pesquisador Zohar Barnett-Itzhaki, da Universidade de Haifa, estima que a pegada hídrica global da inteligência artificial pode chegar a 4,2 ou até 6,6 bilhões de metros cúbicos por ano em 2027.
Ele lembra que a tecnologia para reduzir esse consumo já existe. O que falta é governança para aplicá-la em escala.
Ele defende um conceito que chama de "sobriedade hídrica digital", que vincule a avaliação de quais aplicações de IA são justificáveis ao consumo de água que elas exigem.
O que países como a Suécia mostram ao Brasil
A Suécia, que tem clima frio e abundância de energia renovável, vem atraindo investimentos de big techs para a construção de data centers em suas cidades do norte.
Empresas como a EcoDataCenter e a Green Mountain usam a baixa temperatura ambiente para resfriar servidores sem evaporar água, reduzindo drasticamente o consumo hídrico.
O governo sueco também exige transparência nos relatórios de sustentabilidade, o que, como argumentam os pesquisadores Privette e Barros, é essencial para uma regulação eficaz.
A diferença entre Suécia e Brasil não é apenas climática. Lá, a transparência é uma exigência legal. Aqui, a falta de dados detalhados sobre consumo de água por data center ainda é a regra, não a exceção.
Soluções inovadoras e projetos pilotos de Data Centers no Brasil
Há iniciativas que mostram que é possível conciliar expansão digital com sustentabilidade.
Em março de 2026, a ABDI e o CPQD lançaram o Projeto ECOS, com investimento de R$ 3 milhões, para desenvolver soluções de eficiência energética e hídrica para datacenters.
O projeto prevê um concurso de inovação que destinará R$ 1,5 milhão para startups que apresentarem tecnologias para reduzir o consumo de energia e água em centros de dados.
A Dataprev, empresa de tecnologia da Previdência Social, recebeu em 2025 a certificação máxima de eficiência energética (selo ouro) para seus data centers de Brasília e São Paulo.
O superintendente Bruno Manhães explicou que as medidas de otimização do sistema de climatização geraram uma redução de aproximadamente 42% no consumo energético.
É um exemplo de que a tecnologia para aumentar a eficiência já existe. A pergunta que me faço é por que não está sendo aplicada em escala.
O Green Grid, um consórcio industrial sem fins lucrativos, desenvolveu métricas como o Índice de Eficiência Hídrica (WUE) para medir o consumo de água por kWh de energia consumida.
A média do setor é de 1,9 litros por kWh, mas a adoção da métrica ainda é limitada.
O que me parece evidente é que o Brasil, que se orgulha de sua matriz energética limpa, precisa tratar o consumo de água dos data centers com o mesmo rigor com que trata as emissões de carbono.
Do contrário, a "nuvem" que promete modernidade pode se tornar, na verdade, uma tempestade sobre os recursos hídricos do país.
Conclusão
O Brasil quer ser o paraíso dos data centers, mas esqueceu de olhar para a conta da água.
Enquanto a Suécia exige transparência, o país ignora o consumo invisível que já pressiona a bacia do Alto Tietê.
A tecnologia para reduzir o desperdício existe. O que falta é vontade política para transformar eficiência em regra.
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Professora Camila Teles