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Desmatamento no Cerrado: o bioma que abastece o Brasil está secando

 

Por causa do desmatamento o Cerrado já perdeu 28% da sua cobertura original em 40 anos. São 40,5 milhões de hectares destruídos — quase três vezes o tamanho do estado de São Paulo.

Todo dia, 1.482 hectares de vegetação nativa viram pó. Em 2025, as queimadas no bioma alcançaram 8,7 milhões de hectares, o que representa 69% de toda a área queimada no Brasil.

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A ciência já mostrou que essa destruição não é apenas uma tragédia ambiental. É um problema de saúde pública, de economia e de sobrevivência.

O calor extremo, agravado pelo desmatamento, aumenta o risco de infartos, AVCs e doenças respiratórias. 

A fumaça das queimadas piora a qualidade do ar. A dengue avança para áreas onde não existia. A seca encarece a comida e a conta de luz.

A destruição do Cerrado não é um problema do futuro. É uma conta que já está sendo paga agora, no corpo, no bolso e na mesa de cada brasileiro.

Neste texto, você vai entender por que o desmatamento do Cerrado está matando mais rápido do que a ciência conseguia prever — e o que isso significa para a sua vida.

Indicador Dado
Área desmatada em 2025 540.614 ha
Participação no desmatamento total 54,9%
Queda em relação a 2024 16,9%
Área queimada em 2025 8,7 milhões de ha
Participação nas queimadas totais 69%
Perda em 40 anos (1985–2024) 40,5 milhões de ha
Cobertura original perdida 28%
Perda na última década (2015–2024) 6,4 milhões de ha
Desmatamento concentrado no Matopiba 70%

Fonte: MapBiomas (RAD2025), INPE/PRODES, IPAM.


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Cerrado lidera desmatamento no Brasil pelo terceiro ano consecutivo

O Cerrado perdeu 540.614 hectares de vegetação nativa em 2025. Sozinho, o bioma respondeu por 54,9% de todo o desmatamento registrado no país.

É o terceiro ano seguido que o Cerrado lidera os índices nacionais de destruição, mesmo com uma queda de 16,9% em relação a 2024. 

Em números absolutos, a área desmatada equivale a 1.482 hectares por dia.

A cada 24 horas, o bioma perde uma área equivalente a quase 1,5 mil campos de futebol.

A redução, embora positiva, não é suficiente para conter o avanço da agropecuária sobre a vegetação nativa. 

Enquanto a Amazônia registrou queda de 20,6% no desmatamento, o Cerrado continua sendo o bioma mais pressionado.

A região do Matopiba — Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — foi responsável por 40% de todo o desmatamento nacional e por 70% das perdas registradas no Cerrado. É lá que o agronegócio avança com mais força, e é lá que a destruição se concentra.

Os dados são do MapBiomas, divulgados em maio de 2026 com base no Relatório Anual do Desmatamento de 2025 (RAD2025). Apesar da queda, o Cerrado segue como o bioma mais vulnerável do país.

A pergunta que fica é: até quando a redução de 16,9% será motivo de alívio, enquanto o bioma que abastece as principais bacias hidrográficas do Brasil continua sendo devastado?

540 mil hectares perdidos em 2025: o retrato da destruição

Os 540.614 hectares desmatados no Cerrado em 2025 representam mais da metade de toda a área perdida no Brasil.

Para efeito de comparação, a Amazônia, que costumava liderar os índices de desmatamento, ficou em segundo lugar. O Cerrado desmatou o equivalente a 5,4 vezes a cidade de São Paulo em área.

Cada hectare de vegetação nativa derrubado significa menos água infiltrando no solo, menos carbono estocado, menos biodiversidade.

O Cerrado é o berço das águas do Brasil: abastece as bacias do Amazonas, do São Francisco e do Paraná. 

Matopiba: o coração do desmatamento no cerrado

A região do Matopiba concentrou 70% de todo o desmatamento do Cerrado em 2025. Sozinha, respondeu por 40% do desmatamento total do Brasil.

É o epicentro da destruição. A expansão da soja e da pecuária avança sobre a vegetação nativa em ritmo acelerado.

Entre os dez municípios mais desmatados do país, oito estão no Matopiba. A lógica é simples: terra barata, grãos valorizados, fiscalização frágil.

O Cerrado, que já perdeu 28% de sua cobertura original em 40 anos, continua sendo tratado como uma área descartável.

Enquanto o agronegócio comemora recordes de produção, o bioma que sustenta a água e o clima do país paga a conta.

Fogo no cerrado: 8,7 milhões de hectares queimados em 2025

Enquanto o desmatamento avança sobre a vegetação nativa, o fogo faz o trabalho sujo de limpar o que sobrou.

Em 2025, o Cerrado foi o bioma mais castigado pelas queimadas, com 8,7 milhões de hectares consumidos pelo fogo. Esse número equivale a 69% de toda a área queimada no Brasil.

O dado é da segunda edição do Relatório Anual do Fogo, divulgado pelo MapBiomas. 

O Brasil registrou 12,7 milhões de hectares queimados em 2025, uma redução de 31% em relação à média histórica de 18,4 milhões.

A queda foi puxada principalmente pela Amazônia, que teve a menor área queimada em 41 anos. 

Mas o Cerrado, mesmo com redução, manteve o triste título de campeão nacional de queimadas.

A diretora de Ciência do IPAM e coordenadora do MapBiomas Fogo, Ane Alencar, explica que a redução na Amazônia se deveu a condições climáticas atípicas — o período chuvoso se estendeu até abril, o que segurou o fogo.

No Cerrado, a seca prolongada e a vegetação adaptada ao fogo criaram o cenário perfeito para a propagação das chamas.

O que preocupa não é apenas o tamanho da área queimada, mas o que ela representa em termos de perda de biodiversidade, degradação do solo e emissão de carbono.

Queimadas no cerrado superam média histórica em 2025

O Cerrado queimou mais do que a sua própria média histórica. Enquanto o bioma tem uma média anual de 9,6 milhões de hectares queimados, em 2025 foram 8,7 milhões.

A queda, embora existente, é pequena perto da redução expressiva de outros biomas.

A Amazônia caiu de 15,8 milhões de hectares queimados em 2024 para 3,1 milhões em 2025 — a menor marca em 41 anos. O Pantanal teve uma queda de 85,6% em relação à sua média histórica.

O Cerrado, que deveria ser o bioma mais resistente ao fogo por sua vegetação adaptada, continuou queimando como se não houvesse amanhã.

O MapBiomas aponta que 64% de toda a área queimada no Brasil desde 1985 já foi atingida pelo fogo mais de uma vez. No Cerrado, a recorrência é ainda maior.

A vegetação queima, rebrota, queima de novo. O ciclo se repete até que o solo se degrade a ponto de não sustentar mais a vida.

Fogo e desmatamento: a combinação que destrói o bioma

O fogo no Cerrado não é acidental. Ele é uma ferramenta. A mais barata e rápida para "limpar" áreas recém-desmatadas e preparar o terreno para a pastagem ou a soja.

A relação entre desmatamento e queimadas é direta: primeiro derruba-se a vegetação nativa, depois atea-se fogo para eliminar os restos e abrir espaço para o gado ou a plantadeira.

O IPAM documentou essa conexão ao longo de anos. O fogo está intimamente ligado ao desmatamento, pois é a forma mais barata e rápida de limpar áreas recém-desmatadas.

Por muitos anos, a relação entre as duas variáveis foi ignorada ou subestimada. Hoje, os dados são inequívocos: onde há desmatamento, há fogo.

O resultado é uma dupla degradação. A vegetação que já foi derrubada perde sua função de regular o ciclo hídrico. O fogo que a segue queima o que restou, empobrece o solo e libera carbono armazenado por décadas.

A biodiversidade, que já havia sido reduzida pelo desmatamento, sofre mais um golpe. O ciclo recomeça.

Enquanto o Brasil tratar o Cerrado como uma fronteira agrícola a ser conquistada, o fogo continuará sendo usado como ferramenta de expansão. A conta será paga pelo bioma e por quem dele depende.

Perda histórica: 28% do cerrado já foi destruído em 40 anos

cerrado


O Cerrado já perdeu 28% de toda a sua cobertura nativa original. Entre 1985 e 2024, foram suprimidos 40,5 milhões de hectares de vegetação — uma área maior que o território da Espanha e quase duas vezes o estado do Paraná.

É o segundo bioma mais impactado do país, atrás apenas do Pampa.

Apenas na última década, o Cerrado perdeu 6,4 milhões de hectares de vegetação nativa. Desse total, 73% da destruição se concentrou na região do Matopiba.

A área ocupada por agricultura no bioma cresceu 533% desde 1985, e a pastagem avançou 44% no mesmo período.

A formação savânica, a mais característica do Cerrado, foi a mais afetada: perdeu 26,1 milhões de hectares, o que representa uma redução de 32% em relação a 1985.

A diretora de Ciência do IPAM, Ane Alencar, avalia que a perda de vegetação nativa compromete diretamente a resiliência do Cerrado e suas populações frente às mudanças climáticas, agravando cenários de seca e intensificando a pressão por recursos hídricos.

O bioma que abastece as principais bacias hidrográficas do país está sendo tratado como área descartável — e a conta dessa destruição já chegou.

40,5 milhões de hectares perdidos: o preço da expansão agropecuária

Os 40,5 milhões de hectares de vegetação nativa destruídos no Cerrado entre 1985 e 2024 são o resultado direto da expansão agropecuária sobre o bioma.

A agricultura foi o tipo de uso da terra que mais cresceu: 22,1 milhões de hectares adicionados, um incremento de 533% em relação a 1985. A pastagem aumentou 14,7 milhões de hectares no mesmo período.

O padrão de ocupação mudou ao longo das décadas. Até 1995, a pecuária foi a principal força de conversão da vegetação nativa. A partir dos anos 2000, a agricultura ganhou protagonismo.

Em 1985, cerca de 42% dos municípios do Cerrado tinham a agropecuária como uso majoritário do solo. Em 2024, essa proporção subiu para 58%. Os municípios com mais de 80% de vegetação nativa caíram de 37% para 16%.

O preço dessa transformação é a perda de um bioma que abriga 5% da biodiversidade mundial e abastece as bacias do Amazonas, São Francisco e Paraná.

A cada hectare de Cerrado convertido em pastagem ou soja, o país perde um pedaço do que sustenta sua própria produção agrícola no longo prazo.

O cerrado está secando: perda de água superficial e aquíferos

A vegetação do Cerrado não é apenas paisagem. Ela funciona como uma esponja: absorve a água da chuva, infiltra no solo e recarrega os aquíferos que alimentam os principais rios do Brasil.

Quando essa vegetação é derrubada, o ciclo se rompe.

A perda de 28% da cobertura nativa significa menos água infiltrando, menos nascentes brotando e menos veredas resistindo à estiagem.

O Cerrado é o berço das águas do país, mas está secando mais rápido do que a ciência previa. A própria expansão agrícola, que avançou sobre o bioma, depende da água que ele produz. Destruir o Cerrado para plantar soja é como cortar a própria raiz.

A pesquisadora Bárbara Costa, do IPAM, lembra que o bioma sofreu transformações profundas em quatro décadas. 

A superfície de água natural no Cerrado enfrentou queda entre 2012 e 2019, e a recuperação registrada em 2021 veio principalmente de reservatórios artificiais, não de nascentes naturais.

O Cerrado não está apenas perdendo árvores. Está perdendo a capacidade de manter a vida.

Impactos do desmatamento do cerrado na saúde da população

A destruição do Cerrado não é apenas um problema ambiental. A fumaça das queimadas, o calor extremo e a expansão de vetores como o Aedes aegypti estão transformando o bioma em um problema de saúde pública.

Estudos mostram que cada 1°C de aumento na temperatura eleva em 1,6% as hospitalizações por infarto. 

As queimadas aumentam em 23% a chance de o brasileiro desenvolver doenças respiratórias.

O professor Nelson Gouveia, da Faculdade de Medicina da USP, explica que o calor extremo eleva o risco de infartos, insuficiência cardíaca e outras complicações, especialmente em pessoas com doenças crônicas.

O desmatamento acelera a proliferação da dengue no Centro-Oeste. O Cerrado não está apenas perdendo árvores. Está perdendo a capacidade de sustentar a vida humana.

Onde a vegetação cai, a temperatura sobe, o ar piora e as doenças se espalham. A conta chega primeiro para os mais vulneráveis — crianças, idosos e populações sem infraestrutura.

Queimadas no cerrado agravam doenças respiratórias

A fumaça das queimadas no Cerrado não respeita fronteiras. Ela viaja centenas de quilômetros e atinge cidades distantes, carregando material particulado fino que penetra profundamente nos pulmões.

Pessoas com asma, bronquite e outras doenças respiratórias crônicas são as mais afetadas. 

A inalação de gases e partículas tóxicas desencadeia crises, agrava quadros existentes e aumenta o risco de infecções.

Estudo da FGV revelou que as queimadas aumentam em 23% a probabilidade de o brasileiro desenvolver doenças respiratórias. Em dez anos, o Brasil gastou quase R$ 1 bilhão com internações causadas pela fumaça das queimadas.

O Cerrado, que concentra 69% de toda a área queimada no país, é o principal responsável por essa conta.

O material particulado emitido na queima da vegetação contém monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio e hidrocarbonetos. 

Esses poluentes não apenas agravam doenças respiratórias existentes, mas também aumentam o risco de câncer de pulmão ao longo do tempo.

Calor extremo e doenças cardiovasculares

O desmatamento do Cerrado não aquece apenas o bioma. Ele aquece todo o país. A perda de vegetação reduz a umidade do ar, eleva as temperaturas e prolonga as ondas de calor.

O corpo humano, especialmente o sistema cardiovascular, sente cada grau a mais.

Para cada 1°C de aumento na temperatura, há um incremento de 1,6% nas hospitalizações por infarto do miocárdio. 

O risco de morte por infarto ou AVC pode aumentar até 50% durante períodos de calor extremo.

A desidratação reduz o volume de sangue circulante, tornando-o mais espesso e propenso à formação de coágulos. 

O coração precisa trabalhar mais para bombear o sangue, elevando o risco de arritmias e insuficiência cardíaca.

O professor Nelson Gouveia, da USP, afirma que o calor extremo aumenta o risco de infartos e outras complicações, especialmente em pessoas com doenças crônicas.

A carga de doenças cardiovasculares devido ao clima quente pode dobrar nos próximos 25 anos se o ritmo atual de aquecimento for mantido. O Cerrado, ao perder sua vegetação, está acelerando esse processo.

Expansão da dengue e outras arboviroses

O desmatamento do Cerrado está mudando o mapa da dengue no Brasil. A doença, que antes se concentrava em áreas litorâneas e úmidas, agora avança sobre o Centro-Oeste.

O calor, a degradação ambiental e a falta de sombra criam o ambiente perfeito para a proliferação do Aedes aegypti.

Pesquisa da Fiocruz mostrou que o avanço do desmatamento, principalmente no Cerrado, favorece a proliferação da dengue. A incidência de larvas do mosquito é maior em regiões com desmatamento acelerado.

O comportamento da dengue no país está fora do padrão histórico. A doença não respeita mais a sazonalidade e avança para áreas antes consideradas livres do vetor.

A perda de vegetação reduz a umidade relativa do ar, cria ilhas de calor e amplia o período de reprodução do mosquito. O resultado é mais casos, mais internações e mais mortes.

O Cerrado, ao ser desmatado, está abrindo as portas para que a dengue se espalhe ainda mais rápido.

A conta econômica do desmatamento do cerrado

O Cerrado não é só paisagem. É infraestrutura. O bioma abastece oito das doze bacias hidrográficas do país e responde por quase 50% da vazão do Rio Paraná, que alimenta a usina de Itaipu.

Quando a vegetação do Cerrado é derrubada, o ciclo da água se rompe. Menos umidade no ar significa menos chuva. Menos chuva significa menos água nos reservatórios. 

Menos água nos reservatórios significa mais termelétricas acionadas, contas de luz mais caras e risco de racionamento.

O advogado Sérgio Leitão, diretor do Instituto Escolhas, resumiu: "Estamos depredando exatamente aquilo que permite a disponibilidade de chuva no país continuar sendo alta".

Um estudo recente mostrou que, se o Brasil tivesse evitado o desmatamento desde 1985, a geração hidrelétrica seria hoje 12,8 TWh maior por ano. 

Essa energia perdida é substituída por termelétricas mais caras, e o custo é repassado ao consumidor.

A seca que avança sobre o Cerrado já afeta a produção de alimentos, encarece a cesta básica e ameaça o abastecimento de água em grandes centros urbanos.

Seca no cerrado encarece comida e energia

A perda de vegetação nativa no Cerrado afeta diretamente a produtividade agrícola. Estudos mostram que, entre 1985 e 2012, o desmatamento causou uma redução média de 6% na produtividade da soja no bioma.

O número pode parecer pequeno, mas, em uma escala continental, representa bilhões de reais perdidos a cada safra.

A redução da cobertura vegetal altera o regime de chuvas. Dias chuvosos no inverno e na primavera caíram pela metade em algumas áreas. Quebras de safra estão se tornando constantes. 

O café e o cacau, culturas sensíveis à variação climática, já sentem o impacto.

Menos oferta significa preços mais altos. Um estudo da ANPEC estimou que a paralisação do desmatamento aumentaria o preço dos alimentos em 2% no acumulado até 2025.

Destruir o Cerrado é destruir a própria capacidade do país de produzir comida a preços acessíveis. Quem paga a conta é o consumidor.

Racionamento de água: o risco que já bate à porta

O Cerrado é o berço das águas do Brasil. É lá que nascem os rios que abastecem São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília.

Quando a vegetação do bioma é derrubada, a água que deveria infiltrar no solo e abastecer os aquíferos escorre superficialmente ou evapora. O resultado é menos água nos reservatórios e mais risco de racionamento.

A crise hídrica de 2014-2015, que quase deixou São Paulo sem água, foi um aviso. O racionamento no Distrito Federal, que durou mais de um ano, foi outro.

Um estudo do Trata Brasil estimou que as cidades brasileiras podem ter, em média, 12 dias de racionamento de água por ano.

O desmatamento do Cerrado agrava a escassez. Apenas 11% do bioma está protegido por unidades de conservação, contra quase 50% da Amazônia.

Enquanto o desmatamento for tratado como custo aceitável, o racionamento será tratado como inevitável. 

A pergunta que fica é: até quando as grandes cidades vão ignorar que a água que consomem vem de um bioma que está sendo destruído?

Lições da austrália: manejo de savanas e recuperação de biomas

Enquanto o Cerrado queima de forma descontrolada, a Austrália desenvolveu uma abordagem que transformou o fogo em aliado da conservação.

O país utiliza o manejo integrado do fogo em suas savanas, combinando o conhecimento tradicional dos povos aborígenes com técnicas modernas de monitoramento.

O resultado é uma redução drástica dos incêndios catastróficos e a geração de créditos de carbono que financiam a própria preservação.

O programa australiano de manejo de fogo nas savanas do norte do país é um caso raro de sucesso.

Em vez de combater o fogo, os australianos aprenderam a usá-lo de forma controlada. 

Queimadas precoces, realizadas no início da estação seca, reduzem o combustível disponível para os incêndios de fim de temporada, que são mais intensos e destrutivos.

O resultado é uma paisagem em mosaico, com áreas queimadas em diferentes estágios de regeneração, o que beneficia a biodiversidade e reduz as emissões de gases de efeito estufa.

Atualmente, 32 projetos indígenas de manejo de fogo estão em andamento em 22 milhões de hectares no norte da Austrália. 

Essas iniciativas abatem cerca de 1,2 milhão de toneladas de emissões por ano e geram créditos de carbono vendidos no mercado internacional.

O Brasil poderia replicar esse modelo — se houvesse vontade política.

Manejo integrado do fogo na Austrália

O segredo do sucesso australiano está na integração entre saberes que, durante muito tempo, foram tratados como opostos.

De um lado, o conhecimento milenar dos povos aborígenes, que praticavam queimadas controladas há milhares de anos. 

De outro, a ciência moderna, com satélites, modelos de previsão e sistemas de monitoramento em tempo real.

O resultado é o que os australianos chamam de early dry season burning — queimadas realizadas logo após o fim das chuvas, quando a gramínea ainda está úmida e o fogo não se alastra.

Essas queimadas, de baixa intensidade, criam uma rede de aceiros naturais que impedem que os incêndios de fim de estação se tornem catastróficos.

A professora Mandy Muir, guardiã do conhecimento tradicional no Parque Nacional de Kakadu, resume a filosofia: "Muitos de nós somos professores por direito próprio, dado o conhecimento da terra que possuímos".

O sistema de gestão ambiental que ela descreve funcionou por dezenas de milhares de anos e, agora, é validado pela ciência e pelo mercado de carbono.

O que o Brasil pode aprender com a Austrália

O Brasil tem ciência, tem tecnologia e tem conhecimento técnico sobre manejo ambiental.

O manejo integrado do fogo não é uma novidade para os pesquisadores brasileiros. Estudos mostram que o Cerrado, assim como as savanas australianas, é um ecossistema adaptado ao fogo.

O problema é que, no Brasil, o fogo é tratado como inimigo — e não como ferramenta.

Enquanto a Austrália destina cerca de 2 milhões de dólares australianos por ano para projetos de manejo de fogo em savanas, o Brasil ainda discute se deve ou não permitir queimadas controladas em áreas protegidas.

Enquanto os australianos geram créditos de carbono com a redução de incêndios, o Brasil queima 8,7 milhões de hectares de Cerrado por ano e trata o fogo como um problema exclusivamente policial.

A diretora do IPAM, Ane Alencar, já alertou que o Brasil precisa aprender a conviver com o fogo, não apenas a combatê-lo.

O manejo integrado do fogo, que combina conhecimento tradicional, ciência e políticas ambientais de longo prazo, é o caminho. A Austrália mostrou que funciona. Falta ao Brasil a coragem de trilhar o mesmo caminho.

Conclusão

O Cerrado já perdeu 28% da sua cobertura original. É o bioma mais desmatado do país. Os impactos não são apenas ambientais. E

les são sentidos na saúde, no bolso e na mesa de cada brasileiro. A conta do desmatamento já chegou.

Até quando o país vai tratar o Cerrado como uma área descartável? 

Se você também está cansado de discursos enquanto o bioma queima, compartilhe este texto. O Cerrado não pode esperar.

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