Que o El Niño é um fenômeno natural onde as águas do Pacífico equatorial se aquecem além do esperado, isso nós já sabemos.
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O que pouca gente entende é que esse aquecimento não fica restrito ao oceano. Ele reorganiza os ventos e as chuvas no planeta inteiro.
O resultado são secas devastadoras em lugares que deveriam chover e enchentes onde normalmente faz sol.
A agricultura mundial, desenhada para estações previsíveis, vira um caos. As queimadas se alastram, os rios secam e milhões de pessoas sofrem com a falta de alimentos.
Enquanto você lê esta frase, agricultores na África do Sul ainda tentam se recuperar da safra perdida em 2024.
Aqui na América do Sul, não conseguimos sentir de verdade o desabastecimento.
Com sorte, temos acesso aos mercados de produtos finais e acabamos mesmo, sentindo no bolso, com o preço dos combustíveis, alimentos e remédios.
Neste texto, você vai compreender como o El Niño já afetou diversos países, como as pesquisas científicas podem auxiliar em ações de mitigação e até que ponto o Brasil deve se preocupar com os próximos eventos.
Mecanismos do El Niño na alteração dos padrões climáticos
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, com temperatura pelo menos 0,5°C acima da média .
Esse aquecimento reorganiza a circulação de ventos e umidade em todo o planeta, gerando impactos distintos em diferentes regiões.
1. Aumento da temperatura média global
O El Niño costuma elevar as temperaturas médias do planeta. Durante eventos intensos, o aquecimento adicional pode chegar a cerca de 0,2°C na média global, aumentando o risco de recordes de calor .
2. Mudanças nos padrões de chuva no Brasil
Os efeitos do El Niño no Brasil variam conforme a região :
- Sul do país (RS, SC, PR): aumento das chuvas durante a primavera, com risco de enchentes, deslizamentos e encharcamento do solo.
- Norte e Nordeste: redução drástica das chuvas e maior risco de seca severa e incêndios florestais.
- Centro-Oeste e Sudeste: ondas de calor mais frequentes e períodos de baixa umidade relativa do ar.
3. Impactos no Pacífico Ocidental
Países como Austrália, Indonésia e Filipinas tendem a enfrentar condições mais secas, com aumento do risco de secas severas e incêndios florestais.
4. Chuvas intensas na América do Sul Ocidental
Peru e Equador costumam registrar chuvas intensas e enchentes durante episódios de El Niño.
5. Alterações nas monções asiáticas
O fenômeno pode afetar o regime de monções na Índia, alterando o padrão histórico de chuvas na região
6. Mudanças na atividade de furacões no Atlântico
O El Niño tende a reduzir a atividade de furacões no oceano Atlântico, alterando a formação de tempestades tropicais
7. Aumento da frequência de eventos extremos
O pesquisador Gilvan Sampaio, do INPE, explica que o El Niño potencializa os eventos extremos provocados pelo aquecimento global, intensificando períodos de seca prolongada e episódios de chuvas intensas concentradas em curtos intervalos
8. Impactos na agricultura
As alterações climáticas afetam diretamente a produtividade agrícola. Na Região Sul, o excesso de chuvas compromete as lavouras de milho, soja e trigo.
No Norte e Nordeste, a estiagem prolongada prejudica culturas de sequeiro e reduz a disponibilidade hídrica.
Breve histórico dos impactos do El Niño em diversas regiões do planetaInterrupção da surgência e colapso da pesca no litoral peruano
Em 1998 e novamente em 2016, o fenômeno interrompeu a subida das águas frias ricas em nutrientes na costa peruana.
O plâncton, base da cadeia alimentar marinha, simplesmente sumiu. A pesca da anchova desabou 75%.
Cerca de 25 mil famílias de pescadores ficaram sem trabalho. O governo teve que importar farinha de peixe. O preço da ração para frangos e porcos disparou no mercado internacional.
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Aumento da temperatura superficial e branqueamento de recifes de coral
O aquecimento do mar por poucos graus mata os corais. Eles expulsam as algas que lhes dão cor e alimento. Em 2016, 30% da Grande Barreira de Corais australiana morreu.
O fenômeno se repetiu em 2020 e 2024. A cada novo evento, o recife demora mais para se recuperar. A pesca artesanal na região despencou junto com os corais.
Quebra de safra de milho na África Austral
A safra de milho da África do Sul, a maior do continente, encolheu 30% em 2024. A seca provocada pelo El Niño queimou as plantações.
Os países vizinhos, Zâmbia e Zimbábue, perderam metade da produção.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estimou que 20 milhões de pessoas na África Austral ficaram em situação de insegurança alimentar grave.
O milho é base da alimentação lá. Sem ele, a fome voltou com força.
O governo sul-africano autorizou a importação de milho geneticamente modificado dos Estados Unidos.
Os agricultores locais perderam uma safra inteira. Muitos não tinham seguro e acumularam dívidas impagáveis.
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Redução da vazão em reservatórios hidrelétricos no Zimbábue
As barragens que abastecem a principal hidrelétrica do Zimbábue operaram com menos de 30% da capacidade.
O país passou por apagões de até 18 horas por dia. A indústria parou. Os preços dispararam.
Os trabalhadores rurais foram os primeiros a perder o emprego. Sem energia para irrigação e sem chuva regular, o pequeno agricultor não tem como competir.
Muitos migraram para as cidades, engrossando as filas do desemprego.
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Salinização de solos e perda da produção de arroz no Sudeste Asiático
O El Niño também provoca excesso de chuva em lugares que não estão preparados. Na Indonésia, as lavouras de arroz sofreram com enchentes atípicas em 2016 e novamente em 2024.
A água salgada do mar invadiu os canais de irrigação. A salinização do solo matou as mudas.
A produção de arroz caiu 40% nas áreas costeiras de Java, onde vive a maior parte da população. O preço disparou 25% em seis meses.
O governo anunciou a importação recorde de 2 milhões de toneladas de arroz em 2025. As famílias mais pobres trocaram o arroz por mandioca.
Emissão de material particulado por incêndios florestais em Sumatra
Os incêndios florestais na ilha de Sumatra, intensificados pela seca, transformaram a região num barril de pólvora. A fumaça chegou a Cingapura e à Malásia.
Crianças usaram máscaras para ir à escola. Voos foram cancelados. A poluição causou crises respiratórias em milhares de pessoas.
As imagens de Kuala Lumpur coberta por uma névoa cinza correram o mundo.
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Falta de água e perda da produtividade do café na Colômbia
A Colômbia é um dos maiores produtores mundiais de café. O El Niño de 2015/2016 provocou uma seca severa que destruiu plantações inteiras nas regiões de Nariño e Cauca.
A produção caiu 40% naquele ciclo. O preço do café disparou nos mercados internacionais. Pequenos agricultores colombianos, sem reservas, abandonaram suas terras e migraram para as cidades.
Em 2024, o fenômeno voltou a ameaçar as lavouras. A Federação Nacional de Cafeicultores da Colômbia alertou para uma nova quebra de safra.
O café que chega à sua xícara pode ter vindo de uma plantação que sobreviveu ao desastre por pouco.
Redução da produtividade do trigo na Austrália
A Austrália é uma potência agrícola. O país responde por 15% do comércio mundial de trigo. O El Niño de 2019 transformou lavouras promissoras em pó.
A produção de trigo australiana caiu 50% em 2019/2020. As exportações despencaram. Países importadores, como Egito e Indonésia, tiveram que buscar o produto em outros fornecedores, pagando mais caro.
O governo australiano declarou situação de emergência em várias regiões. Os agricultores sobreviveram com ajuda federal. Muitos não conseguiram replantar no ano seguinte.
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Medidas de mitigação de impactos para o fenômeno El Niño
Mas não adianta apenas prever desastres. É preciso agir antes que eles aconteçam. Alguns países já entenderam isso e desenvolveram políticas públicas eficazes para reduzir os danos causados pelo El Niño na agricultura e no abastecimento de água.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) desenvolveu protocolos de preparação para seca em países como Burkina Faso, Chade, Níger, Maláui, Zimbábue, Filipinas, Paquistão e na América Central.
Esses protocolos incluem estoques comunitários de sementes, avaliação de reservas estratégicas de alimentos e campanhas de vigilância da saúde animal.
A FAO também mapeia mudanças na vegetação em todas as terras agrícolas do mundo. Os técnicos combinam essa análise com calendários de culturas para entender como a falta de chuva pode afetar a produção.
Na Colômbia, a Associação Colombiana de Sementes e Biotecnologia (Acosemillas) emitiu recomendações específicas para os agricultores diante da chegada do El Niño.
As orientações são: monitore os prognósticos climáticos, planeje o uso da água com sistemas de irrigação adequados, diversifique as plantações para reduzir o risco de perdas, melhore a gestão do solo com cobertura vegetal e compostagem, e busque assessoramento técnico especializado.
O governo do Peru, um dos países mais afetados pelo fenômeno, investiu em sistemas de alerta precoce e na recuperação da infraestrutura hídrica.
O país também implementou programas de diversificação de cultivos em regiões vulneráveis a secas e enchentes.
As lições dos El Niños de 1998 e 2016 ajudaram a salvar vidas e reduzir prejuízos econômicos.
A Austrália, depois do colapso da produção de trigo em 2019, fortaleceu o seguro rural e criou linhas de crédito emergenciais para os agricultores.
O governo australiano também investe em pesquisas para desenvolver variedades de culturas mais resistentes à seca e ao calor extremo.
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El Niño 2026 e as projeções para a agricultura brasileira
Agora a má notícia: o El Niño está de volta. As projeções mais recentes da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA (NOAA) indicam que a probabilidade de formação do fenômeno já ultrapassa 90% para o segundo semestre de 2026.
O governo brasileiro, por meio do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), já montou um grupo de especialistas para monitorar eventos extremos.
Encontros entre ministérios e institutos de pesquisa acontecem semanalmente. A pergunta que não quer calar: cadê a ação preventiva?
O diretor da FDC Agroambiental, Marcello Brito, foi direto: a chance de chegada do El Niño é de 100%.
O setor agrícola brasileiro já enfrenta uma conjuntura adversa antes mesmo dos efeitos do fenômeno: inadimplência alta, juros elevados, aumento de custos, queda de preços e falta de fertilizantes.
O governo precisa agir agora e não daqui a seis meses, quando as plantações já estiverem queimadas pelo sol ou afogadas pela chuva.
O sul do Brasil pode enfrentar o que os gaúchos já conhecem bem. Em anos de El Niño, a região registra chuvas torrenciais.
O solo fica encharcado e as lavouras de milho e soja apodrecem antes da colheita. As culturas de inverno, como o trigo, são particularmente afetadas nos meses mais chuvosos, como setembro e outubro.
Nas regiões Norte e Nordeste, o cenário é oposto. A previsão é de redução drástica das chuvas, aumento das temperaturas e risco de seca severa.
Isso afetará diretamente os recursos hídricos, a agricultura familiar e a navegação fluvial na Amazônia.
No Centro-Oeste e Sudeste, o fenômeno pode comprometer parte da estação chuvosa, impactando os reservatórios das usinas hidrelétricas e elevando o risco de incêndios florestais.
Os agricultores não podem contar apenas com a sorte. Precisam de políticas públicas. Precisam de linhas de crédito emergenciais antes da crise, não depois.
Precisam de seguro rural e assistência técnica para adaptar o plantio às condições adversas.
Agora eu me pergunto: o que o governo federal está fazendo, de fato, para proteger a agricultura brasileira do El Niño que já está batendo na porta?
Conclusão
O Peru, a África do Sul, a Indonésia, a Colômbia e a Austrália já pagaram o preço. O Brasil foi avisado.
Os modelos da NOAA, os estudos da Nature e os relatórios do Cemaden e do INPE são claros: o El Niño vem aí. A ciência fez a parte dela.
O que falta é o governo fazer a sua. Enquanto outros países investem em sistemas de alerta precoce, crédito emergencial antes da crise e seguro rural que funciona, o Brasil aposta na mesma estratégia de sempre: esperar a tragédia acontecer.
Isso me indigna porque não é falta de informação.Investir antes é mais barato, salva vidas, protege empregos e evita que alimentos fiquem caros para quem já não tem nada.
A omissão tem dono e a conta sempre sobra para os mais pobres.
Agora me diga: você também está cansado de ver o governo agir só depois do estrago? O que falta fazer?
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Professora Camila Teles