O grande teatro da ONU e como as metas de 2030 foram sabotadas antes de começar


Agenda 2030 não é um tratado qualquer. É um plano que 193 países assinaram em 2015, prometendo transformar o mundo até o final desta década. 

bandeiras de vários países


Eu costumo acompanhar a evolução dessa agenda. Mas confesso que não estou muito confiante.

Acabar com a pobreza, garantir água potável para todos, frear as mudanças climáticas. Em teoria, soa ambicioso. Mas na prática, o cenário é outro.

Em 2024, a organização divulgou que apenas 17% das metas estavam no caminho certo para serem cumpridas até 2030. Quinze por cento, pasmem, apresentavam retrocesso.

O que está em jogo, no entanto, não é apenas a reputação da ONU. É o acesso à água limpa na África subsaariana. 

É a fome que voltou a subir no Iêmen e na Síria. É o plástico que continua invadindo os oceanos enquanto líderes mundiais discursam sobre sustentabilidade.

Neste texto, vou mostrar o que os relatórios oficiais não contam sobre a Agenda 2030, onde o mundo já falhou e o que ainda pode ser feito antes do sino bater em 31 de dezembro de 2030.

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O que é a agenda 2030 e por que ela existe

Antes de falar em atrasos e frustrações, é necessário lembrar do que exatamente estamos tratando. 

A Agenda 2030 não nasceu do nada. Ela é fruto de uma conferência da ONU realizada em 2015, na cidade de Nova York, onde 193 países sentaram à mesma mesa e assinaram um compromisso chamado "Transformando Nosso Mundo: A Agenda de Desenvolvimento Sustentável". 

Era um gesto de otimismo pós-crise financeira de 2008, com a economia mundial ainda tentando se reerguer.

A ideia central era simples, mas de execução monstruosa: estabelecer 17 grandes objetivos e 169 metas menores para serem cumpridos até o fim de 2030. 

Acabar com a miséria, garantir educação de qualidade para todos, alcançar a igualdade de gênero, assegurar água limpa e saneamento básico universal. Parece o céu, não é mesmo?

Cada país adaptaria as metas à sua realidade, mas ninguém sairia de trás da mesa sem se comprometer com o básico.

O que muita gente ignora, no entanto, é que a Agenda 2030 não é um tratado com força de lei. 

Não há exército da ONU para obrigar ninguém a cumprir nada. O que existe é pressão diplomática, relatórios bienais e encontros sem fim...

Para alguns países, isso é suficiente. Para a maioria, não é. E é aí que a conversa começa a ficar interessante.

Os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) em síntese

Vou resumir os ODS de forma direta, porque a lista completa enche três páginas. O primeiro deles é o fim da pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares. 

O segundo é fome zero e agricultura sustentável. Depois vêm saúde e bem-estar, educação de qualidade, igualdade de gênero, água potável e saneamento.

Energia limpa e acessível, trabalho decente, crescimento econômico, indústria e inovação, redução das desigualdades, cidades sustentáveis, consumo responsável.

O que pouca gente nota é a ordem dos fatores. Os primeiros objetivos tratam de necessidades humanas básicas. 

Só lá pelo nono ou décimo item entram inovação e tecnologia. E o clima, que o noticiário tanto martela, aparece apenas no décimo terceiro lugar. 

Essa hierarquia revela uma escolha política clara: antes de salvar o planeta, os redatores da agenda queriam salvar pessoas da miséria. 

A crítica que ouço de alguns colegas ambientalistas é justamente essa: as mudanças climáticas deveria estar no topo, porque sem planeta habitável, pobreza ou riqueza deixam de fazer sentido.

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O pacto global e o prazo que expira em 2030

O nome bonito é "Pacto Global para o Desenvolvimento Sustentável". Na prática, é o reconhecimento de que nenhum país resolverá sozinho problemas que atravessam fronteiras. O plástico que polui o Pacífico não foi jogado por um único governo, concorda? 

O carbono que esquenta o planeta não foi emitido por apenas uma nação. Por isso, o pacto insiste em parcerias público-privadas, transferência de tecnologia entre países ricos e pobres, além de financiamento internacional para projetos verdes em nações menos desenvolvidas.

O problema é que o prazo expira em 31 de dezembro de 2030. E o último relatório da ONU, publicado em setembro de 2025, mostrou que o mundo está longe de alcançar 70% das metas. 

Alguns objetivos, como a redução das desigualdades sociais dentro de cada país, estão piores do que em 2015. 

A pandemia de covid-19, que ninguém havia previsto quando a agenda foi escrita, atrasou programas de vacinação e fechou escolas por meses. 

A guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, desviou bilhões de dólares que seriam usados em cooperação internacional. 

E agora, com a escalada dos conflitos no Oriente Médio, o dinheiro para sustentabilidade parece cada vez menor.

O economista Jeffrey Sachs, que assessorou a ONU na criação da Agenda 2030, admite que o prazo foi otimista demais. 

Sachs argumenta que os países ricos nunca destinaram os recursos prometidos, que as empresas multinacionais boicotaram metas mais ambiciosas de consumo responsável e que a falta de um órgão fiscalizador com poder de multa tornou o compromisso ainda mais frouxo.

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Os desafios que ainda impedem o cumprimento das metas

O relatório mais recente da ONU sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, divulgado em 2025, escancarou uma verdade que muitos relatórios anteriores tentavam maquiar com gráficos bem diagramados. 

Apenas 35% das metas estão no caminho certo. Dezoito por cento regrediram em relação a 2015 .

O secretário-geral António Guterres chamou a situação de "emergência global do desenvolvimento".

Mais de 800 milhões de pessoas continuam na pobreza extrema. Os níveis de dióxido de carbono atingiram a maior marca em 2 milhões de anos. Mais de 120 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas — o dobro de 2015 .

A conclusão que tiro desses números não é boa: o prazo de 2030 vai chegar, e a ONU vai fazer o que sempre fez. 

Lançar outro documento, estabelecer novas metas, empurrar o problema para a próxima década. 

Enquanto isso, quem vive na pele as consequências da desigualdade e da guerra continua esperando soluções que nunca vêm.

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Desigualdade entre países ricos e pobres

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) lançou em maio de 2025 o Relatório do Desenvolvimento Humano, e o título já entregava o tom: "Uma questão de escolha". 

Pela primeira vez desde 1990, o progresso global do IDH desacelerou de forma preocupante. E, pelo quarto ano consecutivo, a desigualdade entre países de IDH muito alto e países de IDH baixo aumentou .

A notícia que rodou os portais em maio de 2025 foi direta: estamos revertendo uma tendência histórica de redução das desigualdades entre nações ricas e pobres. 

Enquanto países desenvolvidos mantêm sistemas de proteção social que cobrem quase 90% de sua população, nações de baixa renda mal conseguem proteger 2% de seus cidadãos com políticas sociais efetivas .

O administrador do PNUD, Achim Steiner, afirmou que o mundo está mais dividido, mais inseguro e mais vulnerável a choques econômicos e ecológicos. 

A conta dessa desigualdade, como sempre, chega primeiro para os mais pobres. Enquanto os países ricos discursam sobre cooperação internacional, o financiamento para o desenvolvimento caiu 7,1% em 2024, após cinco anos de crescimento.

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Crises climáticas e guerra: fatores que a agenda não previu

Quando a Agenda 2030 foi desenhada, em 2015, o mundo vivia um momento de relativa estabilidade geopolítica. 

A guerra na Ucrânia não havia começado. O conflito no Oriente Médio não tinha a escala atual. 

Ninguém previa que rotas marítimas vitais seriam fechadas e que o comércio global entraria em modo de pânico.

A secretária-geral da Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), Rebeca Grynspan, fez uma declaração em setembro de 2025 que resume o momento: "Não víamos disrupções sustentadas nas artérias do comércio global desde o fechamento do Canal de Suez em 1967" .

O que mudou? A guerra na Ucrânia complicou a navegação no Mar Negro. Os ataques no Mar Vermelho desviaram navios para a rota do Cabo da Boa Esperança, adicionando 21 dias em cada viagem de ida e volta. 

O Estreito de Ormuz, por onde passa 34% do petróleo exportado por via marítima, vive sob risco constante de escalada entre Irã e Israel .

Um estudo publicado no periódico Transportation Science em janeiro de 2025 quantificou o estrago. 

Antes da invasão, o trigo ucraniano era vendido a 270 dólares por tonelada. O preço saltou para 500 dólares em alguns países. 

Agricultores ucranianos, que antes ganhavam 270 dólares por tonelada, passaram a receber apenas 100 dólares, abaixo do custo de produção. O prejuízo total no setor agrícola ucraniano chegou a 70 bilhões de dólares.

O impacto regional foi imediato. Países do Oriente Médio e Norte da África, altamente dependentes do trigo ucraniano, enfrentaram escassez e alta de preços. A insegurança alimentar, que já era grave, piorou. 

E o efeito cascata atingiu também o comércio de gás natural liquefeito, com navios do Catar desviados para a rota da África para evitar o Mar Vermelho, atrasando entregas na Europa e elevando custos .Cheguei a pensar que a agenda 2030 foi escrita para um mundo que não existe mais. 

Como as guerras afetam as metas da ONU 

soldados
imagem meramente ilustrativa-créditos pexel


O conflito em Gaza, por sua vez, produziu um retrocesso de desenvolvimento chocante. Um relatório conjunto do PNUD e da UNESCWA estima que a guerra fez o Estado da Palestina regredir ao nível de desenvolvimento equivalente ao ano de 1955, 69 anos atrás. 

O PIB se contraiu 35,1% em 2024. A pobreza alcançou 74,3% da população .

Achim Steiner, administrador do PNUD, advertiu que, em meio ao sofrimento imediato e à terrível perda de vidas, também se desenvolve uma grave crise de desenvolvimento que põe em perigo o futuro dos palestinos para as gerações vindouras

Em Gaza, a economia se contraiu 83% em 2024. Os preços dos alimentos aumentaram 450% em um ano.

A escalada entre Irã e Israel, que muitos analistas consideram o conflito mais perigoso da região, piorou ainda mais o cenário. 

O secretário-geral da ONU, António Guterres, advertiu que qualquer intervenção militar adicional poderia ter enormes consequências para a paz e a segurança internacional .

O resultado de tudo isso é um desvio maciço de recursos. A ajuda humanitária e os fundos para o desenvolvimento estão sendo redirecionados para emergências bélicas. 

O ODS 17, de parcerias globais para o desenvolvimento sustentável, está sendo minado pela fragmentação geopolítica. 

As tarifas médias sobre as exportações dos países menos desenvolvidos dispararam de 9% para 28% em 2025 .

Um relatório conjunto do Banco Mundial e da ONU, Pathways for Peace, já advertia em 2018 que mais da metade dos pobres do mundo viveria em países afetados por altos níveis de violência até 2030.

A previsão se mostrou assustadoramente precisa. O mundo se rearma como não se via desde a Guerra Fria. 

O gasto militar global alcançou US$ 2,7 trilhões em 2024, o maior nível já registrado, com um salto de 9,4% em relação ao ano anterior .

A pergunta que me faço é: como esperar cumprir metas de desenvolvimento sustentável enquanto bilhões de dólares são desviados para financiar guerras e arsenais nucleares?

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Metas irrealistas da agenda 2030 ou falta de vontade política?

O caso da energia limpa é o exemplo mais didático dessa desconexão entre discurso e prática. O ODS 7 prometia "energia limpa e acessível para todos" até 2030. 

António Guterres, em evento no Conselho Econômico e Social da ONU, lembrou que cerca de um bilhão de pessoas no mundo não têm acesso a nenhum tipo de eletricidade. 

Três bilhões ainda cozinham e aquecem suas casas sem energia limpa ou tecnologias eficientes.

No ritmo atual, a própria ONU admite que 660 milhões de pessoas continuarão sem acesso à energia elétrica em 2030. 

Quase 2 bilhões de pessoas seguirão dependendo de combustíveis poluentes para cozinhar. Traduzindo: a meta foi falhada antes mesmo de começar a ser implementada.

A conclusão é amarga: a ONU sabia, desde 2015, que os números não fechavam. O financiamento necessário para os ODS era estimado em 2,5 trilhões de dólares por ano antes da pandemia. 

Depois da covid-19, o valor subiu para 4,2 trilhões de dólares. Sabiam que os países ricos não iriam desembolsar esse montante. Sabiam que as guerras desviariam recursos. Sabiam e mesmo assim mantiveram as metas.

Dinheiro mal investido: projetos que poderiam esperar

O financiamento climático global prioriza projetos de mitigação em países de renda média. Energia limpa e transporte sustentável recebem a maior parte dos recursos.

A adaptação, essencial para proteger comunidades pobres contra enchentes e secas, fica com um volume muito menor de dinheiro. 

Estudos citados por pesquisadores da PUC-Rio confirmam que a distribuição de ajuda internacional frequentemente segue interesses estratégicos, políticos ou históricos, em detrimento do nível de pobreza

Os mais vulneráveis - países de baixa renda na África e na Ásia - são os que menos recebem apoio. É uma inversão de prioridades que me parece moralmente indefensável.

O diretor executivo do Programa Mundial de Alimentos, David Beasley, advertiu que "fomes de proporções bíblicas" podem estar a caminho. 

A ONU estima que mais 130 milhões de pessoas podem se juntar às fileiras dos famintos. E ainda assim o dinheiro vai para projetos que, embora importantes, poderiam esperar. 

Conclusão

A verdade que os relatórios da ONU escondem é simples: na minha humilde opinião a Agenda 2030 foi um fracasso anunciado. 

As metas eram perfeitas no papel, mas ninguém colocou dinheiro em cima da mesa. Os países ricos cortaram a ajuda ao desenvolvimento. 

Quantas crianças precisarão passar fome até que o mundo decida agir de verdade? A ciência já deu todas as respostas. O que falta é vergonha na cara.

O futuro não vai ser mudado por diplomatas em Nova York. Vai ser mudado por gente como você, que leu até aqui e resolveu não ficar calado.

Se você também está cansado de discursos e encontros, compartilhe este texto.


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