A remada viking e a cultura nórdica que invadiu a Copa do Mundo

A remada viking nunca será esquecida. Os jogadores da Noruega sentados no gramado, remando em perfeita sincronia, enquanto a torcida vibrava. 

remada viking Halland remando paisagem fria junto com seu time em barco viking
Feita por IA


Aquela comemoração – batizada de “remada viking” – não era apenas uma coreografia ensaiada. Era um gesto de 1.200 anos de história.

A Copa do Mundo de 2026 reservou um confronto que poucos esperavam: Brasil e Noruega nas oitavas de final. 

E, para surpresa de muitos, os vikings modernos levaram a melhor. Dois gols de Erling Haaland decretaram a eliminação brasileira

Mas, além da dor da derrota, a partida deixou uma lição: a cultura nórdica, mesmo a milhares de quilômetros da Escandinávia, segue viva e pulsante.

Os noruegueses não estavam apenas comemorando um gol. Eles estavam evocando seus ancestrais. 

Os mesmos que, séculos atrás, cruzaram os mares em navios longos, desafiaram tempestades e fundaram cidades na Europa, na Rússia e até na América do Norte

A remada não era um gesto qualquer. Era um tributo à herança de um povo que transformou o mar em estrada e a aventura em modo de vida.

A cultura viking, muitas vezes reduzida a imagens de guerreiros sanguinários com capacetes com chifres, é na verdade um dos capítulos mais fascinantes da história humana. 

Neste texto, vou mostrar a história por trás da remada viking que viralizou na Copa, a mitologia e os rituais dos antigos nórdicos, o que a ciência já desvendou sobre eles e como a cultura viking segue viva hoje em festivais pela Noruega, Islândia e Suécia.

História mitológica dos vikings

Para os vikings, o mundo não era um acaso. Era um palco povoado por deuses, gigantes e criaturas fantásticas. A mitologia nórdica não era um passatempo – era a própria estrutura da realidade.

No centro de tudo estava Yggdrasil, a árvore do mundo, cujas raízes conectavam os nove reinos. 

No topo, Asgard, morada dos deuses. No meio, Midgard, o mundo dos humanos. E, nas profundezas, 

Hel, o reino dos mortos. Cada elemento da natureza – o trovão, a colheita, a guerra – era controlado por uma divindade.

A Cultura viking

A cultura viking era profundamente ritualística e comunitária. Os banquêtes, por exemplo, não eram apenas refeições: eram eventos centrais da vida social, usados para reforçar hierarquias, ratificar leis e celebrar desde casamentos até funerais

As joias que usavam não eram meros adornos; exibiam afiliação religiosa, como o martelo de Thor, símbolo de proteção e poder.

Rituais dos vikings

Os rituais vikings eram intensos e, muitas vezes, sangrentos. O Yule, festival de doze dias que marcava o solstício de inverno, era dedicado aos deuses Thor e Freyr

As famílias levavam comida e cerveja especial às tumbas dos ancestrais e realizavam banquetes diários

O sacrifício de animais – especialmente cavalos, considerados sagrados – era comum. O sangue era espalhado nas paredes, nas estátuas dos deuses e nos próprios participantes, num ritual conhecido como blót.

Comidas típicas 

A mesa viking era mais variada do que se imagina. Cevada, repolho e nabo eram comuns nas despensas.

Durante o Yule, o prato principal era a carne de animais consagrados: um jabalí para Freyr (deus da fertilidade) e uma cabra para Thor.

A bebida também tinha papel central: a cerveja especial, chamada Jólaöl (cerveja de Yule), era consumida em grandes quantidades, com brindes ritualísticos aos deuses para garantir uma boa colheita no ano seguinte

História científica dos vikings

A ciência já desmontou muitos dos mitos que cercam os vikings. O mais famoso deles: os capacetes com chifres. Nunca existiram. 

O único capacete original da Era Viking já encontrado tem um desenho simples, sem qualquer chifre

A imagem do guerreiro com chifres foi uma invenção posterior, popularizada por óperas e romances do século XIX.

O responsável por remodelar e popularizar a "remada viking" na Copa do Mundo de 2026 é o professor norueguês Ole Frøystad. 

Conhecido como "Senhor Row Row" (ou Mr. Row Row), ele é professor do ensino fundamental e teve a ideia de criar uma coreografia simples e marcante para a torcida norueguesa, que estava de volta a uma Copa após 28 anos de ausência.

A inspiração veio de um cântico do clube norueguês Rosenborg, que dividia o nome do time em três sílabas ("Ro-sen-borg"), e da famosa comemoração da torcida da Islândia na Eurocopa de 2016

A coreografia foi criada em dezembro de 2025 e ganhou ainda mais força quando os jogadores, incluindo estrelas como Erling Haaland e Martin Ødegaard, passaram a repetir o gesto nas comemorações dentro de campo.

Embora faça referência à herança cultural dos vikings, a comemoração é, na verdade, uma criação recente, fortemente aceita pela maioria dos noruegueses, mas com alguns críticos que a definiram como "artificial".

Guerras

Os vikings eram guerreiros habilidosos, mas a guerra não era o único objetivo. Desde a infância, o combate era estimulado, mas a estratégia marítima e a navegação eram igualmente valorizadas

Seus navios longos (drakkars) permitiam atravessar mares e subir rios rasos, dando-lhes mobilidade que nenhum exército europeu da época possuía.

Comércio

O comércio foi tão importante quanto a guerra. Os vikings construíram uma vasta rede que ligava o Atlântico Norte ao Mar Báltico, estendendo-se até a Rússia e o mundo árabe

Peles, mel e escravos eram trocados por sal, corantes e especiarias. A rota do rio Volga, por exemplo, abriu o norte da Europa ao comércio com o Império Bizantino e o mundo islâmico.

Colonização

Os vikings foram colonizadores notáveis. Estabeleceram assentamentos nas Ilhas Britânicas, Ilhas Feroé, Islândia, Groenlândia e até na Normandia

Além disso, foram os primeiros europeus a pisar na América do Norte – cerca de 400 anos antes de Cristóvão Colombo. No leste europeu, os vikings (conhecidos como rus) deram origem ao nome Rússia.

Barbaridades

Sim, os vikings cometeram atrocidades. Saquearam mosteiros, escravizaram populações e realizaram sacrifícios humanos em algumas ocasiões. 

Mas não eram mais bárbaros do que outros povos da época. A imagem do viking como um selvagem sem cultura é um exagero criado por cronistas cristãos que viam os nórdicos como uma ameaça pagã. 

Na verdade, os vikings tinham um código de honra, uma literatura rica (as sagas) e um sistema jurídico sofisticado.

Festivais vikings nos países nórdicos hoje

A cultura viking não ficou no passado. Hoje, festivais pela Escandinávia mantêm viva a chama dos ancestrais.

Festival viking na Noruega

Na Noruega, o Karmøy Viking Festival é um dos maiores eventos do gênero. Realizado em junho, oferece arco e flecha, música viking, artesanato e comida tradicional, com recriações de batalhas e da vida em uma fazenda viking.

Islândia tem festival viking mais famoso dos países nórdicos 

A Islândia abriga um dos festivais mais autênticos, o Viking Festival em Hafnarfjörður. O evento de quatro dias inclui combates ao vivo, demonstrações de artesanato tradicional e adivinhação. Os islandeses levam a herança nórdica a sério, e o festival atrai visitantes do mundo inteiro.

Suécia também tem seus festivais com inspirações vikings

Na Suécia, o Midsommar (solstício de verão) tem raízes pagãs que remontam à Era Viking. 

Embora não seja um festival exclusivamente viking, as tradições de dançar em volta da fogueira e celebrar a fertilidade da terra são reminiscências diretas dos rituais nórdicos antigos.

conclusão

Mesmo com a eliminação do Brasil, não podemos negar que a cultura viking é, no mínimo, extraordinária. 

A remada que vimos em campo não foi apenas uma comemoração futebolística – foi a prova de que um povo, mesmo após mil anos, ainda se orgulha de suas raízes.

Os vikings foram mais do que guerreiros. Foram exploradores, comerciantes, poetas e construtores de impérios. 

Sua mitologia ainda nos fascina, seus rituais nos intrigam e sua história nos ensina que o mar não é um fim, mas um começo.

E, se a Noruega nos venceu em campo, talvez tenha nos dado, em troca, uma lição valiosa: a cultura não se apaga. Ela rema. E continua navegando.

Compartilhe este texto e me ajude a espalhar cultura!

Postar um comentário

0 Comentários