A Europa está pegando fogo. Não falo de incêndios — embora eles também estejam acontecendo —, mas de termômetros que não param de subir.
A Alemanha registrou 41,7°C no domingo, o terceiro recorde consecutivo. A República Tcheca bateu 41,1°C . A França, 43,8°C.
E, no meio disso tudo, uma pergunta que me fazem toda hora: o que o El Niño tem a ver com isso?
A resposta curta é: tem, mas não é o único culpado. A Organização Meteorológica Mundial confirmou que há 80% de probabilidade de um episódio de El Niño se instalar entre junho e agosto de 2026, com chances de ser ao menos moderado e possivelmente forte . Falei sobre isso aqui.
O fenômeno aquece as águas do Pacífico e altera a circulação atmosférica global. Isso pode intensificar ondas de calor em várias partes do mundo.
A resposta longa, no entanto, é mais incômoda. O El Niño é natural. O que não é natural é o planeta em que ele está atuando.
A Europa, hoje, é o continente que aquece mais rápido do mundo, com um ritmo duas vezes superior à média global .
O que antes era uma onda de calor que ocorria "uma vez por geração" agora acontece todo ano .
Neste texto, vou mostrar como o El Niño e o aquecimento global estão se combinando para transformar o verão europeu em um pesadelo — e como as cidades, que sabiam o que vinha pela frente, simplesmente não se prepararam.
Ondas de calor: o El Niño acentua aumento da temperatura na Europa
O El Niño em si não sopra ar quente sobre a Alemanha. O que ele faz é mais sutil e, por isso, mais perigoso.
O fenômeno aquece o Pacífico equatorial e modifica os padrões de vento e umidade em todo o planeta, criando condições propícias para que massas de ar quente fiquem estacionadas sobre o continente europeu .
No caso específico desta onda de calor, uma "cúpula de calor" — um sistema de alta pressão estática — se formou sobre a Europa, aprisionando o ar quente sob ela .
Ao mesmo tempo, ventos vindos do norte da África puxam ainda mais ar quente para a região .
Esse padrão meteorológico, embora não seja incomum, atingiu níveis de temperatura que, segundo a World Weather Attribution, seriam "praticamente impossíveis" há 50 anos .
A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, alertou que o mundo precisa se preparar para um El Niño potencialmente forte, que vai agravar secas, aumentar chuvas intensas e elevar o risco de ondas de calor.
O que ela não disse — mas os dados mostram — é que a Europa já está no limite do que sua infraestrutura e sua população podem suportar.
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As noites não resfriam o continente europeu por conta do EL Niño
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, chamou o estresse térmico de "assassino silencioso" .
A razão é simples: as noites não estão mais esfriando. Em muitas cidades europeias, as mínimas noturnas ficaram acima dos 25°C, o que impede o corpo de se recuperar do calor acumulado durante o dia .
A World Weather Attribution descobriu que as temperaturas noturnas registradas durante esta onda de calor seriam 100 vezes menos prováveis em 2003, o ano da histórica onda que matou mais de 70 mil pessoas na Europa .
Em outras palavras, o que era um evento extremo há duas décadas virou quase uma certeza.
O resultado prático está nas estatísticas de mortes. Até 28 de junho, mais de 1.300 mortes em excesso foram associadas às altas temperaturas na Europa desde o dia 21 daquele mês .
Na França, foram cerca de mil mortes, a maioria entre pessoas com mais de 65 anos . Na Espanha, o sistema nacional de monitoramento registrou 212 mortes relacionadas ao calor em apenas quatro dias.
A negligência e a falta de planejamento por parte dos governos
A Europa sabia que isso ia acontecer. A Agência Europeia do Ambiente já havia previsto que os fenômenos climáticos extremos se agravariam.
A ONU alertou que o calor extremo, agravado pela queima de combustíveis fósseis, ameaça a saúde, a economia, a agricultura e as infraestruturas. E ainda assim, as cidades europeias não estavam preparadas.
Um inquérito da Eurocities com 54 cidades de 17 países europeus revelou um cenário preocupante.
Embora 80% das cidades afirmem ter planos de resposta a emergências climáticas, 19% não têm uma única equipe dedicada à adaptação climática.
Treze por cento não restringem a construção em zonas propensas a inundações. O financiamento é escasso, e a coordenação entre agências, quase inexistente .
Haris Doukas, presidente da Câmara de Atenas e comissário-sombra da Eurocities para Resiliência Climática, foi direto: "As cidades europeias estão trabalhando para proteger as pessoas e as infraestruturas, mas não podem fazer isso sozinhas.
Precisam urgentemente de apoio nacional e comunitário mais forte e de longo prazo" .
O problema é que a maioria dos países europeus tratou a adaptação climática como uma despesa, não como um investimento.
Enquanto isso, o asfalto derretia na Alemanha, os trilhos do bonde em Leipzig eram suspensos porque o calor deformou a via , e as redes elétricas entravam em colapso sob a demanda de ar-condicionado.
Exceções: Estocolmo e os refúgios de Barcelona
Há exceções, e elas provam que a falta de preparo é uma escolha, não uma fatalidade. Estocolmo foi apontada como a cidade mais resiliente da Europa em um ranking que analisou mais de 11 mil áreas urbanas .
A capital sueca investiu em áreas verdes, drenagem urbana, "canteiros subterrâneos" que permitem que árvores cresçam sob asfalto e um "orçamento de carbono" que limita as emissões da cidade até 2040 .
O resultado não é só ambiental. Durante ondas de calor, Estocolmo sofre menos ilhas de calor, tem mais sombra e os prédios são mais adaptados para o calor. Não por acaso, a cidade lidera o ranking europeu de resiliência climática .
Barcelona adotou outra abordagem: os refúgios climáticos. A cidade criou 401 espaços públicos climatizados a 26°C, acessíveis a qualquer pessoa.
Bibliotecas, parques, pátios escolares. Hoje, 98% da população tem um refúgio a menos de 10 minutos de casa . A meta é que, até 2030, todos tenham um refúgio a cinco minutos a pé.
Paris seguiu o mesmo caminho, com o programa "Oásis", que transforma pátios de escolas em espaços verdes para proteger grupos vulneráveis.
O arquiteto André Turbay, que atua no programa ClimateLabs da União Europeia, fez uma ressalva que considero honesta: os refúgios são paliativos.
Eles protegem as pessoas, mas não resolvem a causa do problema . A mitigação — reduzir as emissões, parar de queimar combustíveis fósseis — é o que realmente importa.
Consequências do EL Niño
O que me incomoda nessa história é a sensação de que a Europa já sabia o que estava por vir. Os relatórios estavam lá. Os alertas foram emitidos.
O financiamento existia, ou poderia existir se houvesse prioridade política.
Em vez disso, vimos o dinheiro ser desviado para guerras. A ajuda internacional ao desenvolvimento caiu 6% em 2024, e a projeção para 2025 é de uma queda adicional entre 10% e 18%. Enquanto isso, o gasto militar global alcançou US$ 2,7 trilhões em 2024, o maior nível já registrado .
A conta do calor extremo na Europa vai chegar. Ela já está chegando — na forma de mortes de idosos, escolas fechadas, asfalto derretido, energia mais cara.
O que as cidades europeias fizerem até o próximo verão vai determinar se essa conta será paga com juros ou com planejamento.
Conclusão
O El Niño não criou a crise climática. Ele apenas tornou mais evidente o que já estava em curso.
A diferença entre as cidades que estão sofrendo agora e aquelas que resistem melhor não está no fenômeno natural, mas nas décadas de investimento ou negligência que as antecederam.
As escolas fechando na França, as mortes registradas na Espanha, o asfalto derretendo na Alemanha — tudo isso são sintomas de um continente que sabia o que vinha pela frente e mesmo assim optou pela inação.
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O futuro não vai ser mudado por relatórios em Bruxelas. Vai ser mudado por gente como você, que leu até aqui e resolveu não ficar calado.
Leia também: Arquitetura e urbanismo seria a salvação para as cidades do futuro



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Professora Camila Teles