Análise de cotas fluviométricas e antecipação da estiagem
Nunca se viu uma seca tão forte na Amazônia como a de 2023 e 2024. Os dados oficiais confirmam a gravidade da situação.
O Rio Solimões, em Tabatinga, atingiu a marca histórica de -94 centímetros. Em 2023, o nível mais baixo havia sido de -72 cm. A água simplesmente sumiu .
Rios como o Madeira, em Porto Velho, registraram o segundo menor nível da história: 134 cm.
Apenas no ano anterior a medição havia sido pior, com 110 cm. No Acre, a situação também foi crítica: o Rio Acre, em Rio Branco, marcou 131 cm, a terceira menor cota da série histórica .
A pior notícia, segundo o Serviço Geológico Brasileiro (SGB), é que essa seca chegou antes do esperado.
Em 2023, as cotas negativas só foram registradas em outubro. Em 2024, os níveis críticos já apareciam em agosto. A tendência de agravamento é clara e assustadora .
Dispersão de material particulado e comprometimento da qualidade do ar em centros urbanos
A seca não age sozinha. Os incêndios florestais, potencializados pela vegetação ressequida, produziram uma cortina de fumaça que viajou milhares de quilômetros.
Porto Velho (RO) amanheceu diversas vezes coberta por uma densa nuvem de poluição.
No dia 14 de agosto de 2024, o Índice de Qualidade do Ar (IQA) da capital rondoniense atingiu a marca de 557, considerado nível "perigoso" pela plataforma suíça IQAir.
Em menos de duas semanas, o nível de poluição subiu para mais que o dobro. No começo do mês, estava em 272.
Depois, disparou. A quantidade de partículas finas que entram no pulmão, vindas da queimada, chegou a 40,8 vezes acima do que a Organização Mundial da Saúde considera aceitável. Respirar aquele ar equivalia a fumar vários cigarros por dia .
A pneumologista Ana Carolina, em entrevista ao G1, explicou que o ar poluído e sem umidade piora doenças como asma, bronquite e rinite.
Também eleva o risco de pneumonia e infecções por vírus. Quem mais sofre são crianças, idosos e pessoas com problemas de saúde crônicos.
Em Rio Branco (AC), a situação foi igualmente grave. A capital acreana registrou a segunda pior qualidade do ar do país, com média de 237 µg/m³.
O mês de agosto de 2024 já havia superado o número de queimadas do mesmo período do ano anterior.
Relato de populações afetadas e ausência de políticas públicas de abastecimento
Enquanto isso, nas comunidades ribeirinhas isoladas, a fome e a sede falam mais alto do que os números.
Em Xiborena e Catalão, comunidades flutuantes de Manaus, os moradores dependem do Rio Negro. Com a seca histórica, o acesso à água potável virou uma epopeia.
Anderson Souza Aguiar, produtor de carvão, emocionou-se ao descrever a realidade do local. "Aqui a gente é esquecido.
São quase 450 pessoas, aqui a gente não é visto por ninguém", desabafou em entrevista ao Profissão Repórter.
A renda de Anderson é de apenas R$ 70 mensais, investidos integralmente em fraldas para a filha pequena.
Para conseguir água potável, os ribeirinhos precisam viajar até Manaus, pelo menos duas vezes por semana.
Doentes ficam sem atendimento médico. Crianças deixam de ir à escola. A falta de políticas públicas agrava ainda mais o sofrimento dessas populações.
O paradoxo da preservação sem desenvolvimento econômico
O Brasil tem hoje aproximadamente 212 milhões de habitantes, segundo estimativas do IBGE para 2026. Desse total, cerca de 28 milhões vivem na Amazônia Legal.
Não se pode ignorar esse dado. Essas pessoas precisam trabalhar, comer, estudar e ter acesso a serviços básicos.
Dizer que a floresta deve ficar intocada enquanto quem vive nela passa necessidade é um discurso que não se sustenta na prática.
Eu sou defensora do meio ambiente. Mas tenho plena convicção de que, em um país com mais de 200 milhões de brasileiros e com milhões habitando a região amazônica, não posso afirmar que economicamente não precisamos da floresta.
A questão não é preservar ou destruir. A questão é como usar os recursos de maneira sustentável, com planejamento, investimento em pesquisa científica e desenvolvimento de manejo adequado.
Os americanos Michael Shellenberger e Bjørn Lomborg pensam da mesma forma. Shellenberger, "Herói do Ambiente" pela revista Time e revisor convidado do IPCC, afirma em Apocalipse Nunca que o alarmismo ambiental extremo atrapalha a criação de políticas eficazes.
Lomborg, autor de The Skeptical Environmentalist, defende que devemos priorizar recursos comparando problemas reais e alocando investimentos onde trarão mais benefícios para a humanidade, como acesso à água potável e combate à pobreza.
Ambos entendem que a solução ambiental passa pela inovação, pelo crescimento econômico e formação de gestores ambientais.
O discurso de que o Brasil é potência ambiental esbarra na falta de investimento em ciência e em fiscalização.
As políticas de incentivo ao desmatamento nos últimos anos destruíram não apenas árvores, mas a credibilidade do país no exterior.
Enquanto o mundo cobra ações concretas na COP30, o que vemos são interesses econômicos de curto prazo falando mais alto do que a segurança climática do planeta.
Conclusão
As mudanças climáticas na Amazônia já deixaram botos e tucuxis mortos, rios secos, ribeirinhos isolados e fumaça sufocante nas cidades.
A conta da destruição já chegou. E você, já sentiu os efeitos da seca ou da fumaça na sua região? O que acha que deveria ser feito?
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Professora Camila Teles