Será que o El Niño extremo está mesmo voltando? Essa pergunta tem viralizado nas redes sociais e nos grupos de professores, gestores ambientais e diversos profissionais que atuam direta ou indiretamente com o meio ambiente.
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O tom é sempre alarmante: o fim do mundo está próximo, uma catástrofe climática sem precedentes está a caminho.
Você provavelmente já viu manchetes assim: "Super El Niño em 2026", "fenômeno extremo com mais de 90% de chance", "alerta de especialistas".
O problema é que essas informações não são verdadeiras.
A ciência não diz isso. Os dados oficiais, como os da NOAA (agência dos EUA) e do CPTEC (centro brasileiro de previsão climática), mostram uma realidade bem diferente.
A verdade é menos apocalíptica e mais cheia de nuances.
Neste texto, vou mostrar o que os boletins oficiais realmente falam sobre o El Niño. Vou explicar qual é a chance real de um fenômeno extremo acontecer e como você pode se informar sem cair no alarmismo exagerado.
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O El Niño vai acontecer?
De acordo com o boletim de maio de 2026 da NOAA (a agência de oceanos e atmosfera dos EUA), a chance de o fenômeno se instalar entre maio e julho é de 82%.
E ele deve continuar forte durante o inverno lá no hemisfério Norte – a probabilidade chega a 96% entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.
Ou seja: não adianta torcer contra. Ele vem. Vale lembrar que esse fenômeno é conhecido e relativamente "corriqueiro".
No entanto, o El Niño extremo, as chances são bem menores.
A real chance de ser "extremo" é só de 37%
O ponto que as manchetes sensacionalistas escondem é a intensidade. A NOAA só considera um El Niño "extremamente forte" quando a temperatura da superfície do mar no Pacífico equatorial sobe mais de 2°C acima da média.
E qual é a probabilidade real disso acontecer em 2026? 37%. Isso mesmo. Nem 90%, nem 95%. Trinta e sete por cento.
O próprio relatório oficial diz que a incerteza sobre a força do fenômeno é grande. Nenhuma categoria de intensidade passa de 37% de chance.
Quem lê as notícias apocalípticas fica achando que o desastre é certo. A ciência mostra exatamente o contrário: o mais provável é um El Niño de intensidade moderada – daqueles que já vimos outras vezes.
1877 quando um El Niño realmente extremo matou milhões
Por que tanto medo? Porque já aconteceu algo terrível no passado. Em meados da década de 1870, um Super El Niño elevou a temperatura do Pacífico em 2,7°C acima da média.
O resultado foi uma fome global que matou entre 50 e 56 milhões de pessoas em três continentes.
Na China, 9 milhões morreram. Na Índia, colonizada pelos britânicos, mais 8 milhões. Os governantes coloniais davam prioridade a enviar os grãos para fora, piorando tudo.
No Nordeste brasileiro, a Grande Seca matou cerca de meio milhão de pessoas. Outros 3 milhões migraram para a Amazônia, e essa mudança forçada acabou impulsionando o ciclo da borracha.
Os mesmos problemas atingiram Egito, África do Sul e Austrália: seca e colheitas totalmente perdidas.
Esse evento climático deixou uma lição importante, mas não um motivo para pânico.
Hoje, a atmosfera e os oceanos estão ainda mais quentes do que em 1877, o que poderia amplificar os efeitos de um novo El Niño extremo. Só que, repito: a chance de ele ser extremo é baixa.
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Como seria um El Niño extremo?
Um El Niño extremo é a versão mais violenta e rara desse fenômeno climático.
Ele acontece quando a faixa central do oceano Pacífico, perto da linha do Equador, esquenta de forma anormal – mais de 2°C acima da média histórica.
Esse aquecimento não é só um número; ele desregula o sistema de ventos e chuvas do planeta inteiro.
Na prática, um El Niño extremo bagunça o clima de um jeito que não vemos em um ano comum. As consequências variam de região para região, mas o padrão geral é bem definido.
O que acontece no mundo depois desse fenômeno
Nos Estados Unidos e no México, a situação se divide em duas. Enquanto o noroeste desses países tende a ficar mais quente e seco (aumentando risco de queimadas), a região sul, incluindo lugares como Califórnia, Texas e Flórida, costuma ter o oposto: mais chuvas e tempestades do que o normal.
Na América do Sul ao norte da Amazônia brasileira, Venezuela, e Colômbia) a temperatura aumenta muito e a umidade do ar bem mais baixa.Isso favorece queimadas e prejudica plantações.
Já o sul (Sul do Brasil, Uruguai, norte da Argentina) sofre o oposto: chuvas torrenciais, enchentes, deslizamentos de terra.
O Sudeste brasileiro também pode ter ondas de calor e chuvas irregulares.Na América Central e no Caribe, o que mais falta é água.
As chuvas praticamente desaparecem, o que prejudica direto as plantações que as famílias usam para se alimentar.
Também fica difícil manter o abastecimento de água nas cidades e no campo. A região acaba enfrentando um período mais longo de seca.
Já na África, Zimbábue, Moçambique e África do Sul sofrem com a seca, a região do Chifre da África recebe chuvas que podem ser fortes demais ou mal distribuídas.
Na Europa, os efeitos são mais sutis. O norte tende a ter invernos mais frios, enquanto o sul (Espanha, Itália, Grécia) acaba recebendo mais chuva nessa época do ano.
Na Ásia e na Austrália, as monções ficam irregulares. Os países do sudeste asiático também sofrem com o período de seca.
Vietnã, Tailândia, Índia e Indonésia, são os mais afetados. A porção norte da Austrália também passa por secas severas. Lavouras de arroz e trigo destruídas. Consequência: preços de alimentos bastante altos.
No outro extremo do Pacífico, Peru e Equador (costa oeste da América do Sul) têm o cenário oposto: chuvas torrenciais e enchentes.
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Quais os impactos ambientais e sociais reais para as pessoas?
Numa situação de El Niño extremo, a agricultura mundial sofre um baque gigante.
Como as principais áreas produtoras de comida (sudeste asiático, centro-oeste brasileiro e planícies americanas) são prejudicadas, a quantidade de alimentos cai e os preços disparam.
Nos países mais vulneráveis, o resultado costuma ser fome, desnutrição e gente fugindo em massa.
As secas prolongadas também reduzem o nível dos rios e reservatórios. Isso significa menos água para beber, menos água para irrigar e menos energia hidrelétrica.
Países que dependem de hidrelétricas (como o Brasil) podem ter apagões ou precisar ligar usinas térmicas mais caras e poluentes.
Já nas áreas de chuva excessiva, o problema é enchente, desabrigados, perda de vidas e destruição de estradas, pontes e casas.
Doenças como leptospirose e cólera costumam aparecer depois dessas tragédias.
Do ponto de vista econômico, os prejuízos passam fácil das centenas de bilhões de dólares. Setores como seguro, transporte, mineração e turismo também sofrem.
Nota oficial da (CEMADEN)
Recentemente, o CEMADEN (Centro de Monitoramento de Desastres Naturais) publicou uma nota técnica. As conclusões são bem mais tranquilas do que as manchetas:
- Sul do Brasil (RS, SC, PR): muita chuva, risco de enchentes e deslizamentos.
- Norte e Nordeste: menos chuva, calor, estiagem mais longa.
- Centro-Oeste e Sudeste: calor intenso, chuvas irregulares, risco de queimadas e queda nos reservatórios.
O documento também alerta para ondas de calor mais frequentes. Alguns estados do Sul e Centro-Oeste já têm entre 12 e 14 ondas de calor por ano. Em 2024, Roraima registrou 31 episódios de calor extremo.
Sobre a água: as bacias dos rios Negro, Xingu e Tocantins-Araguaia já estão baixas. Se o El Niño vier, o déficit hídrico pode se prolongar, afetando navegação, pesca e energia.
Analisando El Niños passados (1982, 1991, 1997, 2009, 2023), os especialistas percebem um padrão: o Centro-Sul deve ficar alerta para chuvas fortes na primavera de 2026. O Rio Grande do Sul é a área mais vulnerável.
A orientação final do CEMADEN é clara: não entre em pânico. A probabilidade de El Niño extremo é de 37%, não 90%.
O caminho é monitorar, manter sistemas de alerta funcionando e preparar com base em ciência, não em medo.
O que podemos esperar:
- El Niño vai acontecer: chance altíssima (acima de 80%).
- El Niño extremo (tipo 1877): chance baixa – só 37%.
- O que esperar no Brasil: Sul com enchentes, Norte/Nordeste com seca, Centro-Oeste/Sudeste com calor e irregularidade de chuvas.
- Impactos reais: agricultura, água, energia. Mas nada garantido.
- Fonte confiável: consulte sempre os relatórios originais da NOAA e do CEMADEN. Desconfie de sites que usam "90%" e "catástrofe" no título.
E fique tranquilo: o mais provável é um El Niño moderado, como vários que já vivenciamos. Preparação sim, desespero não.
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Professora Camila Teles