O Dia de Proteção às Florestas, celebrado em 17 de julho, tem um símbolo curioso no Brasil: o Curupira.
O menino de cabelos vermelhos e pés virados para trás que, segundo o folclore, persegue e castiga quem maltrata a mata.
Em 2025, ele foi escolhido como mascote da COP 30, que acontecerá em Belém. A ironia, no entanto, é cruel.
Enquanto a lenda assusta os destruidores da floresta com seus passos enganosos, os números de 2024 mostram que o desmatamento avançou.
Quase um terço dos focos de incêndio na Amazônia atingiu áreas de floresta primária.
A ministra Marina Silva classificou o cenário como um "esquema
criminoso" para ocupar terras públicas.
O que a data escancara é a distância entre o que celebramos e o que permitimos.
Neste texto, vou mostrar como a lenda do Curupira e a realidade do desmatamento revelam uma inversão de prioridades — e por que a conta, quando chegar, vai pesar no bolso de cada brasileiro.
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Desmatamento na Amazônia: dados oficiais mostram avanço da destruição
Em 2024, o Brasil registrou o maior número de focos de incêndio na Amazônia desde 2021, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Foram 140.328 focos,
um aumento de 35% em relação ao ano anterior. O que mais preocupa os
pesquisadores é que 30% desses incêndios atingiram áreas de floresta primária,
a vegetação original, densa e intacta que nunca havia sido tocada.
O diretor do INPE, Gilvan Sampaio, explicou em entrevista que a floresta primária não queima sozinha. "A floresta úmida não pega fogo naturalmente.
O fogo que atinge a
primária é sempre precedido por corte raso ou degradação.
O pesquisador Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), complementa o raciocínio.
Moutinho afirma que o desmatamento na Amazônia, seguido pelo fogo, é o método mais barato e rápido para abrir novas áreas para pastagem.
O custo ambiental, no entanto, é impagável. Cada hectare de floresta primária queimada libera toneladas de carbono, destrói habitats e empurra espécies inteiras para a extinção..
Os satélites do INPE detectam o fogo em tempo real. O que falta é agir rápido, multar pesado e prender quem manda derrubar. Sem isso, a floresta vira pasto e o pasto vira deserto, como já aconteceu em outras partes do país.
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Desmatamento e pecuária
A pecuária extensiva continua sendo o principal motor do desmatamento na Amazônia.
As pastagens ocupam 56,1 milhões de hectares na região, um salto de 12,3 milhões desde 1985.
O pesquisador Andrea Cattaneo, do Global Agrobusiness, explica que
a lógica é simples: derruba-se a árvore centenária para criar boi, e o boi
precisa de mais terra, e então derrubamos mais árvores.
A terra se degrada em poucos anos. E o ciclo recomeça. Cattaneo argumenta que o Brasil poderia aumentar a produtividade da pecuária sem derrubar mais um hectare, investindo em manejo e genética.
A senadora Teresa Leitão (PT-PE) criticou duramente a política ambiental do país. "A fiscalização ambiental está sendo desmontada aos poucos.
Os servidores do Ibama e do ICMBio estão sobrecarregados e, muitas vezes, ameaçados.
Florestas em pé: o que países como a Costa Rica mostram ao Brasil
A Costa Rica é um exemplo do que o Brasil poderia ser. O país centro-americano, que tem um território menor que o estado da Bahia, reverteu o ciclo de desmatamento.
Em
1987, apenas 24% do país era coberto por florestas. Hoje, são 54%. A ministra
de Ambiente, Andrea Meza, resumiu a filosofia local: "As ações durante a
próxima década serão chave para transformar nosso país".
A diferença entre o Brasil e a Costa Rica é que lá as políticas de conservação não mudam a cada eleição.
O país começou em 1949, com uma Constituição que já promovia fontes
renováveis e a proteção de parques nacionais. A continuidade, não a
intensidade, foi o que trouxe resultado.
Se o Brasil seguisse o exemplo, teríamos hoje uma floresta mais viva, um clima mais estável e uma economia menos vulnerável às secas.
Conclusão
O 17 de julho deveria ser uma data para celebrar a grandeza das florestas. Em vez disso, serve como um lembrete amargo do tamanho do nosso fracasso.
A figura do Curupira, escolhida como mascote da COP 30, não passa de um símbolo de uma proteção que não existe. O que a floresta precisa não é de lenda, mas de lei.
A pergunta que fica é: quantos curupiras serão necessários até que a floresta pare de ser tratada como um problema a ser removido?
O futuro da
Amazônia não será decidido por mascotes em conferências. Será decidido por
gente como você, que leu até aqui e resolveu não ficar calado.
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Professora Camila Teles