Animais da Amazônia: Onça Pintada Pode Entrar Na Lista De Extinção

 

Os Animais da Amazônia estão sumindo em silêncio. Quando falo com meus alunos sobre cadeias alimentares, gosto de usar a imagem de uma orquestra. 

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Os predadores de topo são os maestros. Sem eles, os músicos perdem o compasso e a sinfonia se desfaz em ruído. Na Amazônia, esse maestro está perdendo o ritmo.

Um estudo inédito publicado em outubro de 2025 pelo Instituto Mamirauá revelou que a onça-pintada, maior felino das Américas e principal predador de topo da floresta, sofre uma perda silenciosa e contínua em seu habitat. 

Enquanto áreas protegidas como a Reserva Mamirauá (AM) mantêm densidades impressionantes de quase 10 onças por 100 km², outras regiões apresentam números alarmantes, com apenas 0,6 indivíduo na mesma área.

A diferença, segundo os pesquisadores, está na produtividade primária de cada local. Solos férteis geram florestas ricas em presas. 

Solos degradados geram vazios ecológicos. O dado mais preocupante, no entanto, não está publicado em periódicos científicos.

Neste texto, vou te explicar como a ciência tem registrado, nomeado e rastreado cada onça que ainda resiste na Amazônia, e o que países como Espanha e Portugal já fizeram para provar que é possível reverter o quadro.

Multas E Hectares Que Os Relatórios Não Mostram

Dados do ICMBio obtidos pela BBC News Brasil mostram que, apenas na Área de Proteção Ambiental Meandros do Araguaia (MT), foram registradas 477 infrações ambientais nos últimos dez anos, com multas que ultrapassam R$ 37 milhões.

Uma única fazenda desmatou cerca de 1 mil hectares de forma não autorizada em uma unidade criada especificamente para proteger a onça-pintada.

O levantamento da ONG Global Witness, citado na reportagem, identificou que as onças já perderam 27 milhões de hectares de vegetação nativa nos estados do Pará e Mato Grosso. 

O número é tão absurdo que precisei conferir duas vezes. Somando tudo, estamos falando de uma extensão maior que Inglaterra, Escócia e País de Gales juntos. Mas o desmatamento é apenas o primeiro ato. 

O pesquisador Fernando Tortato, do Programa de Conservação do Brasil da Panthera, explica que a fragmentação do habitat leva à redução das presas naturais. 

Isso faz com que as onças sejam empurradas para dentro das fazendas. Inicia-se então um ciclo perverso: conflito com pecuaristas, retaliação e caça ilegal.

Cientistas Nomeiam e Rastreiam as Onças 

Em meio ao caos, há quem se dedique a registrar, uma a uma, as onças que ainda resistem. O biólogo carioca Emiliano Esterci Ramalho, do Instituto Mamirauá, mora há quase quinze anos no coração da Amazônia estudando o maior felino das Américas. 

Seu projeto Iauaretê foi o primeiro a descrever cientificamente um comportamento único: onças-pintadas vivendo sobre as águas durante os meses de cheia, subindo em árvores para dormir, se alimentar e criar filhotes .

Emiliano Ramalho resume essa relação em poucas palavras: "A onça-pintada é fundamental para a conservação da floresta e a floresta é essencial para a sobrevivência da onça-pintada

O trabalho do grupo de pesquisa que ele lidera já capturou e monitorou dezenas de animais, cada um recebendo um nome – Fofa, Pérola, Baden – e contribuindo com dados que ajudam a entender os movimentos e necessidades da espécie.

O desafio atual de Ramalho vai além. Ele coordena o projeto Providence, que busca criar o primeiro modelo de monitoramento em tempo real de toda a biodiversidade amazônica, utilizando tecnologia de ponta em parceria com universidades brasileiras, espanholas e australianas.

O Gavião-Real Também Perde Espaço

Não é apenas a onça que sofre. Em abril de 2025, o Ibama resgatou um exemplar de gavião-real (Harpia harpyja) no município de Barreirinha (AM). 

A ave, símbolo da biodiversidade brasileira e uma das maiores águias de rapina das Américas, foi encontrada com fratura em uma das patas, apática e com escore corporal baixo.

O gavião-real é classificado como Vulnerável (VU) pelo ICMBio, mesma categoria da onça-pintada.

Assim como o felino, a harpia depende de extensas áreas de floresta preservada para caçar seus predadores de médio porte. Quando a mata cai, ela cai junto.

O caso do gavião resgatado tem um desfecho que merece atenção. O animal foi encaminhado ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Ibama em Manaus, onde recebeu cuidados veterinários especializados. 

É um exemplo do que funciona: estrutura técnica, profissionais qualificados e atuação integrada entre órgãos ambientais.

A Península Ibérica Trouxe o Lince de Volta

lince


Há quem diga que perder espécies é inevitável quando se fala em desenvolvimento. A resposta a esse argumento está na Península Ibérica, onde o lince-ibérico (Lynx pardinus) protagonizou a maior recuperação de uma espécie de felino já alcançada pela conservação. 

No início dos anos 2000, a população do lince-ibérico havia encolhido a ponto de caber dentro de um estádio de futebol. 

Restavam menos de cem animais soltos na natureza. Duas décadas depois, o quadro mudou completamente. 

As contagens mais recentes apontam para mais de 2.400 indivíduos circulando pela Península Ibérica. 

A União Internacional para a Conservação da Natureza, a UICN, reconheceu o avanço e retirou o felino da categoria "Em Perigo", realocando-o como "Vulnerável" em sua lista oficial. 

O que aconteceu entre um período e outro não foi fruto de acaso. Houve décadas de trabalho sustentado por recursos públicos e privados. 

Pesquisadores estudaram a espécie em laboratório e no campo. Centros de reprodução mantiveram populações seguras enquanto áreas naturais eram preparadas para receber novos grupos. 

Proprietários rurais, antes vistos como adversários, passaram a integrar as soluções. Governos da Espanha e de Portugal coordenaram ações transfronteiriças.

Francisco Javier Salcedo Ortiz, que coordenou o projeto LIFE Lynx-Connect, resume bem o esforço: 

"Este sucesso é o resultado da colaboração empenhada entre organismos públicos, instituições científicas, ONG, empresas privadas e membros das comunidades". 

O lince-ibérico nos ensina algo que nenhum relatório técnico consegue esconder: quando a ciência recebe recursos estáveis e as políticas públicas se mantêm no rumo, o que parecia perdido pode ser recuperado.

O Caminho É Pela Pesquisa E Pelo Monitoramento

No Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, o Projeto Onças do Iguaçu registrou em 2025 um recorde: dez filhotes de onça-pintada nascidos dentro da unidade de conservação, que abriga cerca de 42 animais adultos e jovens. 

É um número que anima, mas que vem acompanhado de um alerta da pesquisadora Vânia Foster: nem todos esses filhotes chegarão à fase adulta. 

A sobrevivência, explica ela, depende de disponibilidade de presas, disputas por território, doenças e, sobretudo, impactos ambientais causados pelo homem como desmatamento, caça de presas e atropelamentos. 

O monitoramento contínuo, feito com armadilhas fotográficas e censos periódicos, é a única ferramenta capaz de transformar esses números em conhecimento aplicável. 

No Parque do Iguaçu, os pesquisadores identificaram um padrão de divisão de horários entre onça-pintada e onça-parda, reduzindo a competição direta entre as espécies. É um dado que só emerge com anos de coleta sistemática de informações.

Conclusão 

A ciência já nos entregou as ferramentas para reverter a perda dos predadores de topo na Amazônia. Sabemos onde eles estão, o que comem e por que morrem.

Os dados do ICMBio mostram que áreas protegidas funcionam quando são respeitadas. O lince-ibérico provou que recuperar espécies ameaçadas é possível.

O que falta não é conhecimento. É decisão.

O próximo passo não depende de um novo estudo, mas de uma escolha política. Enquanto Emiliano Ramalho e seus colegas seguem na floresta dando nomes a cada onça, o tempo se mede em hectares derrubados e filhotes que não chegam à vida adulta.

Se você acredita que a ciência é o único caminho para curar as feridas que abrimos no planeta, compartilhe este texto. 

Que ele sirva como um lembrete de que, enquanto há quem pesquise, há esperança.

Até mais! 

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