Pau-brasil é o assunto que eu uso para começar minhas aulas sobre formação do território brasileiro.
Pergunto para os alunos: o que deu nome ao Brasil? A maioria responde o óbvio: pau-brasil. Mas aí eu corrijo.
Não foi o pau-brasil em si. Foi a madeira vermelha que os portugueses encontraram aqui e que, na Europa, valia quase tanto quanto a prata.
Essa madeira, que depois virou sinônimo do país, foi a primeira grande riqueza que extraímos.
O ciclo durou décadas. Movimentou navios, bancou expedições, construiu a primeira máquina de exploração econômica da colônia.
E funcionou de um jeito que hoje me incomoda: cortava-se a árvore sem pensar no depois. Ia para a próxima, e para a próxima, até não ter mais próxima.
Eu lembro bem da primeira vez que vi um pau-brasil adulto. Foi no Jardim Botânico de São Paulo, ali na Água Funda.
A árvore era alta, com a casca alaranjada e o tronco cheio de espinhos. Fiquei ali olhando, tentando imaginar como era a Mata Atlântica quando essas árvores dominavam a paisagem.
Agora, quando caminho pelos poucos pedaços de Mata Atlântica que restam, procuro. Quero encontrar outro como aquele. Mas eles sumiram.
Nos últimos meses, órgãos oficiais começaram a divulgar números que explicam por quê. Números que, na primeira vez que li, achei que estivessem errados.
Neste texto, vou mostrar o que esses números contam e o que a ciência está fazendo para tentar trazer de volta a árvore que batizou o Brasil.
84% Da População De Pau-Brasil Foi Perdida Em 150 Anos
Eu lembro da primeira vez que vi um pau-brasil de verdade, foi no Jardim Botânico de São Paulo.
A árvore era enorme, com aquele tronco alaranjado cheio de espinhos. Achei extraordinário!
Mas não imaginava que a situação era tão grave assim.
Em dezembro de 2025, durante a COP20, o Ibama divulgou um levantamento que confirmou o que eu já desconfiava.
Nos últimos 150 anos, perdemos 84% da população de pau-brasil.
A conta é simples: sobraram cerca de 10 mil árvores espalhadas pelo país.
Mas o que me deixou mais preocupado foi um detalhe que o relatório destacava. Muitas dessas árvores estão isoladas.
Não formam grupos, não se conectam. E sem conexão, não há
reprodução eficiente. É como se cada uma estivesse em uma ilha sozinha, sem
conseguir trocar material genético com outras.
A professora Fatima Conceição Marquez Piña-Rodrigues, da UFSCar, estuda a Mata Atlântica há anos.
Em uma conferência ela explicou que o problema não é só quantidade. Uma árvore sozinha não faz floresta. Sem fluxo genético, a reprodução cai, a diversidade diminui e a espécie vai definhando devagar. Exatamente a situação do Pau-Brasil.
Demanda Internacional Pelo Pau-Brasil
Costumamos pensar que exploração de madeira é coisa do passado. Mas não é bem assim.
Existe um mercado pequeno, silencioso, mas que mantém viva a pressão sobre o pau-brasil. É a frabricação e venda de arcos para instrumentos de corda. Violino, violoncelo, viola.
Quem
toca sabe: a qualidade do arco muda tudo. E o pau-brasil tem uma combinação de
densidade, dureza e elasticidade que nenhuma outra madeira consegue igualar.
O deputado Evair Vieira de Melo, do Espírito Santo, apresentou um projeto de lei sobre o assunto.
Ele lembra que essa tradição vem de mais de duzentos anos. Fabricantes
na Europa e nos Estados Unidos ainda preferem o pau-brasil brasileiro.
O problema, claro, não é o uso. É a origem. O Ibama tem batido nessa tecla: a demanda internacional alimenta um mercado paralelo de extração ilegal.
Madeira que sai da floresta sem controle, sem rastreamento, muitas vezes cortada de árvores nativas que não deveriam ser tocadas.
Investimento Público Em Pesquisa Para Recuperação Da Espécie
No meio de tanta
notícia ruim, apareceu uma que me fez respirar aliviado.
Em outubro de 2025, o BNDES anunciou um aporte de R$ 30,8 milhões para um programa de pesquisa em espécies nativas.
A ideia é pegar todo o conhecimento que os pesquisadores acumularam ao longo dos anos sobre pau-brasil, jacarandá, mogno, ipê e cumaru e transformar isso em técnica.
Técnica que funcione no campo, que dê para usar em escala e que faça sentido financeiro para quem plantar.
Desse dinheiro, R$
24,9 milhões vêm do Fundo Tecnológico do BNDES. É verba direcionada, com foco
em ciência aplicada, não em discurso.
A diretora Socioambiental do banco, Tereza Campello, disse algo que me chamou a atenção.
Ela falou que o crescimento do setor só é possível com conhecimento e
tecnologia. Sem isso, não tem investimento que se sustente.
A meta que eles colocaram é ambiciosa: recuperar 6 milhões de hectares até 2030 e chegar a 24 milhões até 2050.
É mudar a paisagem do Arco do Desmatamento. Mas para isso, precisam acertar a ciência primeiro.
O Pau-Brasil Precisa De 30 Anos Para Voltar
O pesquisador Silvio Brienza Junior, da Embrapa Florestas, explicou como funciona. O programa foi desenhado para dar resultados em cinco anos, mas é só a primeira fase. A ideia é que ele se estenda por 30 anos.
Trinta anos. É o
tempo que um pau-brasil leva para virar adulto, para poder ser manejado sem
comprometer a espécie.
Brienza me lembrou de um ponto importante. Não estamos começando do zero. Existem áreas onde experimentos com espécies nativas foram plantados há 15, 30, até 45 anos. Ele chama essas áreas de "laboratórios vivos".
Outro ponto, a tecnologia da madeira "engenheirada" abre uma possibilidade interessante. Permite usar toras de menor diâmetro, daquelas que seriam descartadas nos desbastes.
Dá um destino nobre para a madeira mais jovem e gera renda mais cedo para quem plantar. É ciência aplicada para encurtar ciclos sem repetir os erros do passado.
Brasil Lidera Regulamentação Do Pau-Brasil Na CITES
Em dezembro de 2025, a CITES se reuniu para sua 20ª Conferência das Partes. É a convenção internacional que regula o comércio de espécies ameaçadas.
Por unanimidade, os países aprovaram uma proposta que o Brasil apresentou. A decisão aperfeiçoou as regras globais para o comércio de pau-brasil.
A proposta aperfeiçoa as regras globais para o comércio de pau-brasil. Define com mais precisão o que é uso comercial e o que é uso não comercial.
Esclarece como instrumentos musicais fabricados com a madeira podem circular entre países.
Mantém a possibilidade de circulação de instrumentos antigos, fabricados antes
das regras atuais. E reforça a proibição do comércio de pau-brasil extraído da
natureza.
O Ministério das Relações Exteriores comemorou. E o acordo vai além: impõe aos países compradores a obrigação de rastrear seus estoques e identificar a origem da madeira. Também estimula a busca por espécies alternativas para a fabricação de arcos.
Marco Legal E Pesquisa Em Sistemas Agroflorestais
Nas minhas aulas,
quando chego nesse ponto, sempre aparece a mesma pergunta. Afinal, pode plantar
pau-brasil?
O engenheiro florestal Paulo Ernani Ramalho Carvalho responde: sim, pode. Em áreas privadas, o plantio é permitido, desde que se respeite as regras ambientais locais.
Projetos de reflorestamento também podem ser feitos, com autorização do Ibama.
A diferença agora está na origem da madeira. O Projeto de Lei 3284/24, que passou pela Comissão de Agricultura da Câmara em dezembro de 2024, estabelece uma regra clara.
Só
pode explorar e comercializar pau-brasil que vier de sistemas agroflorestais ou
de plantios comerciais registrados e licenciados.
O texto também
proíbe cortar árvores com menos de 30 anos. E exige que quem planta comprove
que fez o replantio e que cuidou das novas mudas até elas virarem adultas.
O deputado Pezenti,
de Santa Catarina, que relatou o projeto, resumiu bem a ideia. Ele disse que o
tráfico ilegal ainda é uma ameaça real, e que por isso precisamos de
fiscalização, manejo sustentável e educação ambiental.
O projeto agora está nas comissões de Meio Ambiente, Finanças e Constituição e Justiça, antes de seguir para o Senado.
Conclusão
A história do pau-brasil me incomoda. Não porque seja uma tragédia distante, mas porque é um retrato da nossa relação com os recursos naturais.
Extraímos até quase acabar.
Demoramos para reagir. E quando reagimos, muitas vezes já é tarde.
Os números de 2025
mostram que perdemos 84% da população em 150 anos. Um intervalo que, no tempo
geológico, é nada. Mas foi suficiente para quase apagar o símbolo do país.
O que me dá um pouco de esperança é ver que, mesmo tarde, alguma coisa está sendo feita. Os R$ 30,8 milhões do BNDES para pesquisa aplicada.
A vitória na CITES. O projeto de
lei que estabelece regras claras para o manejo sustentável.
A Costa Rica já mostrou que é possível. Lá, a Mata Atlântica deles foi reduzida a 20% da cobertura original nas décadas de 1980.
Hoje, depois de 30 anos de investimento
contínuo em pesquisa e políticas de pagamento por serviços ambientais, a
floresta cobre mais de 50% do território. Eles não tiveram atalhos. Tiveram
constância.
Falta continuidade. Falta tratar isso como política de Estado, não como projeto de governo. As 10 mil árvores que sobraram são um alerta. Os 30 anos de pesquisa que começam agora são a esperança.
Se você acredita que a ciência pode recuperar o que
destruímos, compartilhe este texto e deixe seu comentário, quero saber qual a sua opinião.
Até mais!

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Professora Camila Teles