O dia dos professores no Brasil, não é muito diferente de outras comemorações tradicionais.
A internet fica repleta de mensagens lindas, histórias que inspiram e a falsa valorização desse profissional.
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Enquanto boa parte da sociedade lembra dos mestres com gratidão pontual, quem vive a sala de aula todos os dias sabe que essa data está longe de ser festiva.
Todo ano, nesse período, somos lembrados da importância do nosso trabalho.
No restante do ano, o que vemos são cortes de verba, salas lotadas, falta de condições dignas e um ciclo exaustivo de cobrança.
Não é exagero dizer que essa data soa como um paradoxo cruel. O que proponho aqui não é apagar o simbolismo do dia, mas expor verdades que precisam ser ditas.
Neste texto, vou mostrar os principais desafios da carreira: insegurança no emprego, salários defasados, sobrecarga, violência escolar e a falta de políticas sérias para quem está na linha de frente.
Por que o professor brasileiro vive com medo de ficar desempregado
Falar em estabilidade do professor é, para muitos quase uma ilusão. A cada novo ano letivo, somos obrigados a passar por processos seletivos, provas e entrevistas.
A lógica do contrato provisório virou rotina. Em fevereiro de 2026, aproximadamente 40 mil professores da rede estadual de São Paulo ficaram sem turmas durante a atribuição de aulas.
Isso significa que eles simplesmente não tiveram o que dar aula. Sem turma, sem trabalho. Sem trabalho, sem salário.
Desse total, cerca de 30 mil são professores temporários, chamados de categoria O. Os números mostram uma realidade preocupante.
Em dezembro de 2025, a rede paulista tinha 94.138 professores temporários, número que já superava os efetivos, que eram 89.275. O mais grave é a tendência.
De 2022 para 2023, que foi o primeiro ano do governo Tarcísio de Freitas, o número de professores temporários saltou de 95.336 para 101.228.
Nesse mesmo período, a quantidade de efetivos caiu: saiu de 95.637 para 90.497. No fim das contas, hoje só 45,1% dos docentes da rede paulista são efetivos.
Contratar tanto professor temporário até parece, num primeiro momento, um jeito de resolver a falta de profissional em sala de aula.
Mas, na real, isso só escancara um problema ainda mais grave.
Quem entra como temporário não tem estabilidade nenhuma. Mal consegue criar laço com a escola.
Também não dá para planejar o ano letivo direito, porque vive naquela dúvida: será que vou continuar aqui no próximo semestre?
E o que isso causa? Uma altíssima rotatividade. Um professor que entra e sai o tempo todo não consegue criar vínculo com os alunos, tampouco dá continuidade ao projeto pedagógico.
Um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento, de 2025, mostra que a contratação temporária de professores em massa afeta negativamente a qualidade da educação.
Em outras palavras, a precarização do vínculo de trabalho impacta diretamente a qualidade da aprendizagem.
E a situação ficou ainda pior com a Resolução Seduc nº 8 de 2026, que permite à direção da escola impedir que um professor temporário volte a dar aulas por até três anos, com base em uma avaliação de desempenho subjetiva.
O critério é vago, a avaliação soa um caráter punitivo, e o professor acaba se sentindo descartável.
O resultado desse modelo, como se pode perceber, é devastador: o professor fica sem segurança, a sala de aula perde a continuidade e, no fim das contas, quem mais sofre é o aluno.
Salários baixos e o sentimento de desvalorização
E não adianta fingirmos que o problema é só o contrato temporário. O salário também pesa, e pesa muito.
O professor brasileiro continua ganhando menos do que a maioria dos profissionais que têm o mesmo nível de estudo.
E não é impressão minha. A ONG Todos Pela Educação fez as contas e chegou num número duro: um professor da educação básica recebe, em média, só 70% do salário de outros trabalhadores com formação equivalente.
É como se o nosso diploma valesse menos na hora de fechar o contracheque.
O Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2025 mostra o número exato. No ano passado, o salário bruto médio do professor da rede pública foi de R$ 5.481,01.
À primeira vista, o valor pode parecer razoável. Só que quando colocamos esse número lado a lado com o salário de outros profissionais de nível superior, a realidade desaba.
A defasagem existe e não é pequena: o professor ganha, em média, 86,1% do que recebem os demais profissionais com a mesma escolaridade.
O pior é que essa realidade vai minando o professor aos poucos. Eu mesma já me peguei pensando se valia a pena continuar. Escrevi sobre isso aqui.
O Instituto Península fez uma pesquisa em 2023 e descobriu que 43% dos professores consideram largar a profissão nos próximos anos. Isso é um sinal de alerta gigante.
Somos cobrados por resultados como se fôssemos super-heróis. Temos que lidar com alunos desmotivados, pais que não participam, direções que muitas vezes não apoiam, e ainda esperam que sejamos exemplos morais dentro e fora da escola.
Reconhecimento? Justiça salarial? Raramente. No fim do dia, bate aquela sensação de que estamos apenas tapando o sol com a peneira.
Enquanto o poder público não criar uma política séria de valorização, continuaremos nesse vai e vem, perdendo bons professores aos montes.
E mais um ano letivo passará com a classe fingindo que está tudo bem. Mas não está.
A rotina exaustiva do professor e o excesso de burocracia
O mito das férias longas ou duas férias por ano e da carga horária "leve" ainda persiste.
Quem está de fora adora repetir isso. A realidade do chão da escola é bem outra. Muitos professores pegam dois ou três turnos, rodam de uma escola para outra, pegam ônibus, metrô, trem, e muitas vezes nem têm tempo para parar e almoçar direito.
Então chega em casa e ainda tem o planejamento das aulas, as leituras para se atualizar, as correções de atividade.
E tudo isso disputando espaço com relatório burocrático, reunião que não acaba nunca e sistema de avaliação impessoal que alguém lá de cima inventou sem nunca ter pisado numa sala de aula.
A Federação Nacional da Educação soltou um estudo em janeiro de 2026 que mostra o tamanho do problema.
Sabe quanto? Noventa e três por cento dos professores acham que a burocracia é excessiva.
E não para por aí: 63% deles, perdem mais de quatro horas por semana com tarefa administrativa.
Vinte e seis por cento perdem mais de sete horas. Isso é quase um dia inteiro de trabalho que poderia ser usado para planejar uma aula melhor, atender um aluno com mais dificuldade ou simplesmente descansar um pouco.
O tempo de estudo está sendo engolido. A mesma pesquisa apontou que 80% dos professores dizem que os relatórios são o que mais pesam.
E metade deles – cinquenta por cento – reclama da burocracia que veio junto com a educação inclusiva.
Não que a inclusão seja o problema. O problema é a enxurrada de papel que inventaram em volta dela.
No fim das contas, não sobra espaço para pensar, para inovar, para respirar. E esse cenário aí, convenhamos, é o prato cheio para a exaustão e a fragilização da saúde mental do professor.
A síndrome de burnout em professores
A síndrome de burnout, aquele esgotamento físico e mental que o trabalho causa, virou um aviso sério para quem está na educação.
Dados de 2026 mostram que a área de ensino é uma das que mais sofre com isso no país, perdendo só para o varejo.
Nove em cada dez profissionais da educação já apresentam algum tipo de risco psicossocial, como jornada excessiva e pressão por resultado .
Não é impressão não. A tal síndrome da desistência, como alguns chamam, atinge cerca de 28% dos professores da educação básica . É quase um terço da categoria.
A universidade também não escapa. Um estudo de 2026 com 1.284 professores brasileiros, publicado no periódico espanhol Psicología Educativa, mostrou que o nível de burnout entre docentes é elevado .
Os pesquisadores identificaram que os principais fatores de risco são a sobrecarga de função, o conflito com colegas, a falta de apoio social e o desequilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
A pesquisa TALIS de 2024 já tinha mostrado que 21% dos professores brasileiros consideram o próprio trabalho muito estressante .
E a PNAD, também de 2024, indicou que mais de 60% dos docentes relatam sintomas de estresse e exaustão no começo e ao longo do ano letivo .
O que causa isso? Não tem mistério. São as jornadas extensas, a violência que entra pela porta da escola, a pressão para aprovar todo mundo e aquela burocracia sem fim que não deixa tempo nem para pensar numa aula diferente.
O professor adoece, pede afastamento, e a qualidade do ensino despenca junto. Enquanto não encararem o burnout como um problema estrutural e não só como frescura individual, vamos continuar perdendo bons profissionais e fingindo que está tudo bem.
Sala de aula precária e o esforço diário para dar conta
Faltam materiais, estrutura e dignidade. É comum encontrar professor dando aula sem quadro adequado, giz, projetor ou internet estável. Em muitos casos, falta até papel.
Turmas com mais de 35 alunos inviabilizam qualquer tentativa de acompanhamento individualizado. A ideia de uma educação personalizada torna-se impraticável.
O espaço físico das escolas impõe desafios: salas abafadas, cadeiras quebradas, banheiros sem manutenção.
Esses detalhes comprometem o processo de ensino e afetam o bem-estar de professores e alunos. É como se a precariedade virasse norma.
Violência na escola o medo que virou rotina
Ensinar, hoje, é também um exercício constante de mediação de conflitos. A indisciplina aumentou — e não é fruto apenas do comportamento dos alunos, mas do abandono sistemático da escola como espaço de cuidado coletivo.
Falta apoio da gestão, das famílias e das políticas públicas. Muitas vezes, o professor é deixado sozinho diante de desrespeito, agressividade verbal e até violência física.
Os números são assustadores. Agressões físicas a docentes aumentaram 26% em 2024, segundo a CNTE.
Trinta e oito por cento dos professores relatam sentir medo ao menos uma vez por semana e 74% já sofreram ofensas, intimidações ou humilhações.
Casos recentes escancaram a gravidade. Em março de 2023, a professora Elizabeth Tenreiro foi assassinada por um aluno de 13 anos em São Paulo.
Em 2019, o ataque em Suzano deixou cinco estudantes e duas funcionárias mortas.
A ausência de protocolos eficazes, o abandono institucional e o avanço de discursos extremistas contribuem para o agravamento desse cenário.
Dados da ANDEP revelam que 1 em cada 10 escolas de ensino médio já enfrentou incidentes com armas em ambiente escolar.
conclusão
Você viu aqui que o dia dos professores não é uma data para festa. É um retrato da insegurança, da desvalorização, da sobrecarga e da violência que marcam a rotina de quem está na sala de aula.
Não quero acabar com a sua esperança de uma educação melhor, com valorização digna a nós que somos professores.
Mas, se ainda há algo a ser lembrado neste 15 de outubro, é a capacidade do professor brasileiro de resistir.
De continuar, apesar do cansaço, de ensinar mesmo sem condições e continuar acreditando que, a educação é o único caminho para a evolução científica e social do ser humano.
Agora me conta: como tem sido a sua rotina na escola? Deixe aqui nos comentários.
Compartilhe este texto com outro professor que também precisa ser ouvido.
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Professora Camila Teles