A educação no Brasil vive um paradoxo e todo mundo fala dela. O governo gasta bilhões e a escola pública continua caindo aos pedaços.

Você já viveu isso? Promessa de reforma que não sai do papel, verba até chega, mas não é bem aplicada. Aluno desmotivado e o professor sobrecarregado.
Falta papel, falta giz, falta cadeira decente e o material didático consegue ser ainda pior. Posso afirmar que falta até dignidade. Isso porque hoje não vou tocar no assunto de salário. Você pode ler o artigo que escrevi aqui (Salário de professor no Brasil e a desvalorização que humilha uma nação).
Eu nunca vou esquecer a sala com 35 alunos, sem ventilador, com carteiras quebradas e um aluno sentado no chão. Não foi um dia isolado isso retrata a rotina de milhões de professores.
O pior não é nem a falta de estrutura. É a sensação de que estamos sozinhos. Os professores adoecem e até as famílias não sabem como cobrar.
Neste texto, vou te mostrar os principais gargalos da rede pública. E o que você pode fazer, no seu canto, para não deixar o barco afundar de vez.
Por que as escolas públicas estão nesse estado de abandono
Sabe o que mais me irrita? Esse problema não começou ontem. Ele vem se arrastando há décadas, e ninguém consegue resolver.
Olha só o que os números mostram. O Censo Escolar de 2024 revelou que 38% das escolas públicas não têm biblioteca. Isso é sério. E mais de 25% nem laboratório de ciências possuem.
Imagina você tentar ensinar química ou biologia sem um microscópio? Ou explicar relevo sem um mapa decente?
Eu lembro de uma vez que levei as crianças na biblioteca da escola. Queria trabalhar com atlas geográfico. Sabe o que encontrei?
Os atlas eram daqueles comprados em lojinha de R$ 1,99. Sem qualidade nenhuma. Mapas genéricos, só político e físico, mal separados por continente.
Fiquei com vergonha de entregar aquilo para os alunos.
E o problema não para nos atlas. O Tribunal de Contas de Santa Catarina já suspendeu a compra de 294 mil uniformes escolares por R$ 45 milhões, justamente por irregularidades e preços acima do mercado (leia mais sobre a suspensão de compra de uniformes escolares por irregularidades.
A verdade é que a falta de investimento continuado comprometeu tudo. Os sucessivos cortes orçamentários travam reformas e compras.
A má gestão escolar na prática
Vou te dar um exemplo. Tenho uma amiga professora no interior de Minas. A escola dela recebeu verba para reformar o telhado. Sabe quando? Em 2021. Até hoje a obra não saiu do papel.
Falta projeto, falta engenheiro, falta licitação e a burocracia, segue deixando tudo mais difícil.
O Tribunal de Contas da União já mostrou que cerca de 30% dos recursos federais para manutenção mal são aplicados.
E não é só dinheiro sumindo é um recurso que poderia ser aplicado na educação.
Enquanto isso, a goteira continua pingando no caderno do aluno.
Já aconteceu com você? De ter que usar o próprio celular para dar aula porque o projetor da escola está quebrado e ninguém conserta? Pois é.
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O impacto direto na sua vida (e no aprendizado do aluno)
Agora, me escuta com carinho. Essa precariedade toda tem um alvo principal: seu aluno. E você, claro.
Uma pesquisa da Fundação Lemann (2024) mostrou que alunos de escolas com estrutura adequada têm desempenho até 25% melhor.
É lógico, não é? Como aprender em sala abafada, com barulho de obra do lado e cadeira desconfortável?
O sociólogo inglês Richard Lynn já alertava: a precariedade impacta mais os alunos pobres. No Brasil, isso significa perpetuar a desigualdade. E quem sofre no final das contas?
Material didático de SP: o barato que sai caro para o professor
Você já tentou dar uma aula criativa usando o material oficial do governo de São Paulo? Eu já. E posso te dizer: a coisa está feia.
Pesquisadores da UFABC e da Unifesp analisaram os conteúdos fornecidos pela Secretaria Estadual de Educação.
O resultado? Problemas metodológicos, erros conceituais e má contextualização. Em outras palavras, o material ajuda pouco e atrapalha muito.
O governo gastou bilhões. A Fundação Instituto de Administração da USP analisou o material e comprovou: apenas 4% tem comprovação científica de fonte.
Isso mesmo, 4%. O resto é opinião disfarçada de conteúdo.
Um exemplo clássico está no material de Química. Os pesquisadores encontraram imagens que ensinam o conceito de calor de forma errada.
Uma abordagem que a literatura científica recomenda evitar há pelo menos 25 anos. Ou seja, o aluno aprende errado, e o professor precisa desaprender depois.
Em Língua Portuguesa, a situação não é melhor. Uma sequência didática para o 1º ano do Fundamental tinha tanta atividade que não cabia em uma aula de 45 minutos.
Atividade para correr, escrever, desenhar, analisar imagens, sistematizar. Tudo ao mesmo tempo.
O professor vira um mero passador de slides. Não sobra tempo para pensar, para respiro, para adaptar.
Agora, me segura que vou falar da Geografia. O material "Currículo em Ação" chegou na minha escola com pompa e circunstância. Na prática, é uma vergonha.
Vem uma folha ou duas de texto raso, superficial. Depois, dois ou três exercícios que mal arranham a superfície do conteúdo.
Questões que qualquer aluno resolve em dois minutos sem precisar pensar. Cadê o aprofundamento? Cadê a análise crítica? Cadê a contextualização com a realidade do estudante?
Vou te dar um outro exemplo de atividade insana do material de geografia. O conteúdo de 8ºano, pede que os alunos reconheçam as características físicas e naturais do continente africano.
Veio um texto com ilustrações das paisagens. Até aí tudo ok. O pior foi o exercício: " Escolha uma paisagem do continente africano e desenhe com base no texto".
Eu, oi? Que vergonha de dar isso para os alunos.
Como é obrigatório o uso do caderno do aluno eu tive que passar, mas na semana seguinte eu marquei informática e levei os alunos para construírem as paisagens do continente africano usando o minecraft.
O interesse e a participação atingiu 100% da turma.
A escola me cobra criatividade. Quer que eu inove, que prenda a atenção da turma, que use metodologias ativas.
Mas o material que a própria escola me dá é um pedaço de papel murcho, com perguntas que parecem saídas dos anos 80.
Como querem que o professor seja moderno com ferramentas retrógradas?
E não para por aí. A Associação de Olho no Material Escolar fez um levantamento com a USP. Eles analisaram como o agronegócio é retratado nos livros.
O resultado? Muita distorção, falta de comprovação científica, e uma visão que não condiz com a realidade do campo.
Uma mãe relatou que a filha entregou uma redação escrita em sala usando palavras como "genocídio", "suicídio" e "destruição de cultura".
A criança disse: "Mãe, eu sei que tá errado, mas eu tinha que usar essas palavras". O material obriga o aluno a reproduzir bobagem sem senso crítico.
O governo alega que o material é "consumível", que o aluno pode rabiscar. E que o livro didático tradicional do MEC cria "dupla orientação".
Desculpa esfarrapada. O que está em jogo é a qualidade da educação.
Enquanto isso, o professor se vira. Usa o que tem, complementa com o que encontra, tenta dar conta de um conteúdo que vem capenga de fábrica.
E o pior? Quem erra no final das contas nunca é o material. É o professor. Cobrado, sobrecarregado e mal equipado.
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A sobrecarga que leva ao adoecimento
Sabe o que mais acontece quando tudo desaba? Sobra para o professor.
Eu já fiz papel de pedreiro (para tirar entulho da sala), de psicólogo (para ouvir aluno em crise), de segurança (para apartar briga). E nada disso está na minha descrição de cargo.
Essa sobrecarga acumula. Uma hora o corpo pede para parar.
Dados recentes mostram que quase 45% dos professores consideram deixar a carreira. Não é porque não gostam de dar aula. É porque não aguentam mais as condições.
Eu mesma já pensei em desistir. Sabe aquele domingo à noite que seu coração aperta só de pensar na segunda-feira? Eu já tive muitos desses.
Mas olha, tem jeito. Não é fácil, mas tem.
O que podemos fazer para mudar esse cenário
Vamos combinar uma coisa. Não adianta esperar o governo resolver tudo. Não vai acontecer, pelo menos não rápido.
O que você pode fazer é montar uma rede de apoio. Trocar ideia com os colegas, compartilhar material, cobrar juntos as mesmas pautas.
Outra coisa: use a tecnologia a seu favor. Muitas plataformas digitais gratuitas hoje resolvem problemas de falta de infraestrutura.
O Canal Futura, por exemplo, tem acervo com milhares de videoaulas. Você pode usar para complementar sua explicação.
E tem mais: pressione o Conselho Escolar. Participe das reuniões na diretoria de ensino. Peça vereador, deputado.
Documente tudo. Fotografe a cadeira quebrada, filme a infiltração, registre a falta de professor.
A melhor estratégia é juntar provas. Com elas na mão, ninguém pode dizer que você está inventando.
conclusão
Olha, eu espero que esse texto não tenha te deixado só indignado. Espero que ele tenha te mostrado que você não está sozinho. Muita gente passa pela mesma luta.
Você aprendeu aqui que a educação pública não está ruim por acaso. Ela é resultado de anos de descaso, má gestão e falta de investimento.
E que isso impacta diretamente seu trabalho e a vida do aluno.
Mas também viu que existem ações possíveis. Pequenas, mas concretas. Trocar ideia com colegas, usar tecnologia gratuita, cobrar os órgãos competentes e registrar tudo.
Agora me conta: o que mais falta na sua escola que atrapalha o seu dia a dia?
Deixa aqui nos comentários. E compartilha esse texto com aquela colega que também vive correndo contra o tempo.
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Professora Camila Teles